Na quarta reportagem da série sobre maternidade, O NORTE destaca o Dia Nacional da Adoção, celebrado na próxima segunda-feira (25). Dados atualizados do Sistema Nacional de Adoção e Acolhimento mostram que há 6.251 crianças e adolescentes aptos para adoção no Brasil, enquanto 32.102 pretendentes aguardam a chance de formar uma família. Neste contexto, a trajetória da médica cardiologista Silvia Rêgo emociona: após perder o filho primogênito, Miguel, aos um ano e meio, ela encontrou na adoção um caminho para recomeçar, transformando luto em amor e esperança.
Atualmente, além de ser mãe de Kaique, de 16 anos, ela também carrega outro legado construído a partir do luto: a criação da Casa de Apoio Miguel Rêgo Alencar, iniciativa que se tornou símbolo de acolhimento, solidariedade e cuidado com pessoas em situação de vulnerabilidade. “Eu tive uma gestação muito desejada. O Miguel nasceu, lutou muito pela vida, mas infelizmente faleceu. Foi a maior dor que já vivi. Poucos meses depois, em setembro de 2015, conheci o Kaique, que na época tinha seis anos. Hoje consigo entender que, mesmo em meio à dor, a vida ainda preparava um reencontro muito importante para mim”, relembra.
A médica conta que o processo de adoção aconteceu em Bocaiuva e afirma que o desejo de adotar sempre esteve presente em sua vida. Segundo ela, a convivência com histórias de adoção dentro da própria família contribuiu para que crescesse entendendo que o amor vai além dos laços biológicos.
“Costumo dizer que meu encontro com o Kaique foi um encontro de almas. Quando o vi pela primeira vez, me emocionei profundamente. Senti meu coração palpitar de uma forma muito intensa e, naquele momento, tive a certeza: ‘é ele, é o meu filho’. Existem encontros na vida que não conseguem ser explicados apenas pela razão. Aquele foi um deles”, destaca.
Silvia afirma que, após a perda do primeiro filho, precisou ressignificar o luto e encontrou na fé e na espiritualidade um caminho para transformar a dor em acolhimento. “A dor de perder um filho nunca deixa de existir completamente. É uma ferida que aprendemos a carregar. Mas, aos poucos, fui entendendo que precisava transformar essa dor em algo que produzisse amor, acolhimento e sentido. O Kaique teve um papel muito importante nesse processo. A chegada dele trouxe novamente vida para dentro da nossa casa e do meu coração”, afirma.
Quando chegou à nova família, Kaique tinha seis anos e já compreendia parte da sua trajetória. Por isso, segundo Silvia, o diálogo e a sinceridade sempre estiveram presentes na relação entre os dois. “Sempre tive uma relação muito aberta e sincera com ele sobre toda a sua história. Eu dizia que precisava respeitar o passado dele, sua origem e sua trajetória. Também explicava que, mesmo não tendo dado certo com a família biológica, nós estávamos recebendo a oportunidade de escrever juntos uma nova história”, relata.
PROCESSO DE ADOÇÃO
Adotar é um gesto de afeto e responsabilidade que exige preparo emocional e compromisso. No Brasil, o processo de adoção é gratuito e deve ser iniciado na Vara da Infância e Juventude mais próxima da residência dos interessados. A adoção é regulamentada pela Lei Nacional da Adoção (Lei nº 12.010/2009) e pelo Estatuto da Criança e do Adolescente (Lei nº 8.069/1990). Entre os principais tipos de adoção estão a unilateral, legal, homoparental, por testamento e póstuma, bilateral ou conjunta, de maiores e internacional. Há ainda a chamada “adoção à brasileira”, prática considerada ilegal pela legislação brasileira.
Segundo a advogada da família, Iara Aguiar, a legislação brasileira permite que a adoção seja realizada por casais, pessoas solteiras ou famílias formadas por duas mães ou dois pais, desde que sejam cumpridas as exigências previstas em lei. Para se habilitar, é necessário ter mais de 18 anos e respeitar a diferença mínima de 16 anos entre o adotante e a criança ou adolescente.
Silvia conta que o processo durou cerca de dois anos e foi marcado por expectativas, medos e incertezas. “Quem passa pela adoção vive uma mistura constante entre esperança e ansiedade. Mas, quando tudo foi concluído, foi uma felicidade imensa. Foi como finalmente poder respirar aliviada e entender que, oficialmente, nossa família estava completa”, relembra.
Ao falar sobre o filho, ela se emociona ao perceber a maturidade com que Kaique compreende a própria história. “Hoje me emociona muito vê-lo se tornando um homem forte, resiliente, corajoso e emocionalmente estruturado. O Kaique teve maturidade para compreender seu passado e também valorizar o presente que construiu”, finaliza.
*Com informações da Agência Brasil

