A coragem de ser

Aos 42 anos, Carla Maria encontrou a liberdade de viver sua verdadeira identidade

Christine Antonini
chrys_antonini@hotmail.com
Publicado em 30/07/2026 às 01:01.

Durante 42 anos, Carla Maria Santos Arruda viveu tentando corresponder às expectativas que a sociedade impunha. Por trás da imagem de um profissional bem-sucedido, diretor de uma instituição de ensino superior, casado e pai de um menino, existia uma mulher que ainda não conseguia viver sua própria identidade. Foi somente aos 42 anos, ao ouvir o relato de outra mulher transexual em um podcast, que ela encontrou coragem para responder à pergunta que mudaria sua vida para sempre: “Quem eu realmente sou?”.


Hoje, aos 46 anos, Carla transformou a própria história em instrumento de acolhimento e conscientização. Graduada em Publicidade e Propaganda, pós-graduada na área, chef de cozinha, artista e consultora em diversidade e atendimento humanizado para cartórios, ela reúne uma trajetória marcada pela criatividade e pelo compromisso com a inclusão. No entanto, revela que, após a transição de gênero, as oportunidades profissionais diminuíram, evidenciando que o preconceito ainda impõe barreiras a pessoas trans, independentemente de sua formação e experiência.
 
Você é uma artista múltipla: planeja, produz e está envolvida em vários cenários. Em qual dessas vertentes você mais se identifica?
Eu sou boa em várias coisas específicas, mas descobri, há pouco tempo, que sou muito boa em falar, cozinhar e criar. Hoje, estou buscando meios para trabalhar com aquilo que faça sentido e gere valor social. Eu me identifico com o poder da criação, porque ele permeia qualquer outra coisa que eu queira fazer na minha vida.
 
Com quantos anos você começou sua transição? Lembra desse processo para compartilhar com a gente?
Comecei meu processo de transição aos 42 anos. Na época, era diretora de uma faculdade da região, estava casada e tinha um filho de seis para sete anos. Até então, nunca havia pensado, de forma consciente, que poderia ser uma mulher trans. Tudo mudou quando ouvi o relato de uma mulher transexual em um podcast, contando publicamente sua história. Enquanto a escutava, percebi que sua trajetória se parecia muito com a minha. Foi naquele momento que comecei a entender quem eu realmente era e a revisitar toda a minha vida.

A primeira reação foi tentar adiar a transição. Pensei que, se já havia esperado 42 anos, poderia esperar mais dez, até que meu filho estivesse perto da maioridade. Mas isso não foi possível. Depois que me reconheci como mulher, já não conseguia mais conviver com minha aparência, minhas roupas, minha barba ou com a imagem que via no espelho. A necessidade de transicionar tornou-se inevitável. Foi então que começou outro desafio: responder à pergunta: “Quem é você?”. Você deixa de ser quem era, mas ainda está no caminho para se tornar a pessoa que sempre enxergou em si.
 
Conversando com outras pessoas transexuais, percebi que o apoio familiar é muito importante. Você teve esse apoio?
Para mim, a família foi o primeiro lugar onde fui agredida. Foi ela que me proibiu de ser Carla desde quando eu era pequena. A pessoa que sou hoje foi abafada para que eu fosse aquilo que a sociedade esperava: um homem.

Tive o apoio do meu irmão, da minha sobrinha e do meu filho, mesmo ainda pequeno. As pessoas mais velhas da minha família me apoiam no sentido de me aceitar, mas eu não quero apenas ser aceita. Tenho familiares que ainda não falam meu nome, assim como tenho pessoas que me abraçaram de forma maravilhosa, como, por exemplo, meu padrasto.
 
Com quantos anos você conseguiu mudar sua documentação? Como foi esse processo?
Consegui mudar minha documentação aproximadamente um ano depois de iniciar a transição. Foi um processo caro na época. Já não era mais judicializado, então não precisei de laudos. Porém, mesmo com o apoio dos amigos, que me ajudaram muito nesse período, é um processo muito solitário.
 
Hoje você ajuda cartórios e outras pessoas a conseguirem ter sua identidade reconhecida. Como esse trabalho é feito?
Trabalho como consultora em cartórios, ensinando formas de atender esse público da melhor maneira possível, com excelência, humanidade e respeito à diversidade, sem perder os princípios da atividade cartorária e em conformidade com a legislação. Trabalho para ajudar a construir um mundo em que meu filho possa crescer e ser quem decidir ser, sem precisar se adequar ou se adaptar às expectativas impostas pela sociedade.

Recentemente, você trabalhou na Câmara Municipal de Montes Claros e foi a primeira mulher trans a atuar na Casa.
Sim. Fui a primeira mulher transexual servidora da Câmara Municipal de Montes Claros. Meu corpo esteve lá dentro como um ato político, para que a Casa Legislativa pudesse olhar para nós de outra forma e também para incomodar aqueles que ainda acreditam que pessoas como eu não podem ocupar espaços como esse.
 
Você tem um filho. Pode contar um pouco dessa história? Como ele se refere a você?
Meu filho hoje tem 11 anos. É uma criança fantástica, e tanto eu quanto a mãe dele participamos ativamente da vida dele. Vivemos em guarda compartilhada. Após a pandemia, por ser uma criança, iniciamos, junto com a psicóloga dele, um processo de letramento de gênero. Fomos trabalhando esse tema até que ele compreendesse que havia algo diferente em relação ao meu gênero.

Um dia, saímos, e o padrinho dele lhe deu um bichinho de pelúcia. Ao chegar em casa, ele disse: “Papai, o guaxinim é neutro”. Foi naquele momento que entendemos que ele já percebia o que estava acontecendo. Então, eu e a mãe dele decidimos explicar sobre a minha transição.

Contei que o papai sempre foi uma menina por dentro e que, por isso, algumas coisas mudariam, como as roupas, o corpo e até o nome, que passaria a ser Carla.

Ele se levantou, me deu o abraço mais gostoso do mundo e disse: “Eu te amo, Carlinha. Você é meu papai de qualquer jeito”. A partir desse momento, eu não sou nem o papai, nem a mamãe. Sou a “papaia”. Agora que ele está entrando na pré-adolescência, também me chama de Carla.
 
Por que você escolheu o nome Carla Maria?
Um dos grandes privilégios das pessoas transexuais é poder escolher o próprio nome. O nome Carla surgiu para mim ainda na adolescência, por volta dos 17 anos, quando tive meu primeiro contato com a internet, no saudoso Chat UOL. Lá, fui Carla por diversas vezes, sem saber que, na verdade, eu estava sendo eu mesma, acreditando que aquilo era apenas uma brincadeira.

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