Distopias Brasileiras

Adirley Queirós revela sociedade incapaz de superar o racismo e a violência

Elpídio Rocha
cinemacomentado@gmail.com
Publicado em 14/08/2026 às 23:32.
Cineasta olha para o futuro por meio do passado, revelando aquilo que o presente tenta esconder (Laura Campanella Prime Video/Divulgação)
Cineasta olha para o futuro por meio do passado, revelando aquilo que o presente tenta esconder (Laura Campanella Prime Video/Divulgação)

Quando um filme apresenta cidades destruídas, sociedades submetidas ao controle, corpos transformados pela tecnologia ou comunidades perseguidas, está mais interessado em revelar aquilo que o presente tenta esconder do que adivinhar o futuro. No cinema brasileiro, essa característica ganha uma dimensão particular. Superando a obrigação de construir mundos espetaculares, os(as) cineastas encontram o futuro nas periferias, na desigualdade, no fundamentalismo religioso, na violência e na tecnologia que promete facilitar a vida enquanto modifica silenciosamente as relações humanas.

Em “Branco Sai, Preto Fica” (2014), a violência policial contra frequentadores de um baile de música negra, em Ceilândia, é transformada em matéria de ficção científica. Há máquinas do tempo, personagens deslocados e uma Brasília reinventada, mas o centro do filme está na memória. A tecnologia não apaga a história; ao contrário, permite revisitá-la. A distopia de Adirley Queirós revela a permanência de uma sociedade incapaz de superar o racismo e a violência contra os pobres; o cineasta olha para o futuro por meio do passado. 

Gabriel Mascaro, em “Divino Amor” (2019), desloca a distopia para o território da fé. O Brasil de 2027 aparece organizado, tecnológico e funcional, mas está submetido a uma moral religiosa que invade a intimidade e interfere nas relações familiares. Joana (Dira Paes numa interpretação magnética) trabalha em um cartório e dedica-se a impedir separações, convencida de que sua missão é preservar os casamentos. O filme não precisa de ruínas nem de monstros para produzir desconforto. Basta imaginar uma sociedade em que o desejo individual passa a ser regulado por uma combinação de religião, burocracia e tecnologia. 

“Carro Rei” (2021), de Renata Pinheiro, encontra a distopia em uma relação aparentemente absurda de proximidade entre humanos e automóveis. O jovem Uno consegue conversar com carros e o automóvel, símbolo básico da liberdade individual, passa a representar controle e dependência. Com a ajuda do tio Zé Macaco, interpretado com maestria por Matheus Nachtergaele, ele transforma o veículo numa máquina que pode falar, ouvir e se apaixonar – e o carro começa a reivindicar seu próprio espaço. A estranheza do filme está em transformar um objeto cotidiano em personagem de uma fábula sobre a sociedade consumista atual.

Produção apadrinhada e financiada pelo Prime Video, “Corrida dos Bichos”, de Fernando Meirelles, Ernesto Solis e Rodrigo Pesavento, leva a lógica distópica para um Rio de Janeiro devastado por desastres ecológicos. Neste cenário, o jogo do bicho se transformou em um espetáculo midiático de sobrevivência e competição, no qual os pobres e desfavorecidos são colocados para correr enquanto a elite aposta e se diverte “guiando” os competidores. As referências são diversas e clichês: lembra “Jogos Vorazes” reverenciando o romance japonês “Battle Royale” – que já foi adaptado em mangá e filmes – numa conexão com a série 3%, seriado nacional de quatro temporadas bancado pela Netflix. A ideia é brutal porque não parece absurdo transformar a desigualdade em entretenimento capitaneado por um elenco estrelar com Rodrigo Santoro, Isis Valverde, Thainá Duarte, Seu Jorge, Grazi Massafera e Bruno Gagliasso; pode-se afirmar que o filme leva ao extremo uma lógica de converter a miséria em diversão, apostas e disputa individualista.

Assim, toda distopia é, de alguma maneira, uma conversa com o presente – e esta é a força dos filmes distópicos brasileiros. São obras que não nos transportam para outro(s) planeta(s), e sim oferecem cenários bem similares, análogos ao cotidiano do país. Quando saímos da sessão ou encerramos a exibição nos streamings, permanece a desconfortável sensação de que o futuro não “está chegando”; em certos aspectos, ele já começou.

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