
Há documentários que registram uma realidade e outros que propõem uma nova forma de enxergá-la. É o caso de “A Queda do Céu”, de Eryk Rocha e Gabriela Carneiro da Cunha, que será exibido em 23 de julho, às 18h30, no Conservatório de Música Lorenzo Fernandez, pela Mostra Grande Otelo, em Montes Claros. Gratuita, a sessão leva às telas o testemunho do xamã Yanomami Davi Kopenawa e apresenta uma visão de mundo em que natureza, humanidade e espiritualidade são indissociáveis.
O ponto de partida é o Reahu, um dos mais importantes rituais do povo Yanomami, que representa o momento de reencontro entre comunidades, de despedida dos mortos, de fortalecimento dos vínculos e de renovação da vida coletiva. A câmera acompanha esse processo sem pressa; em vez de explicar tudo ao espectador, prefere observar. O silêncio, os sons da floresta, os cantos e os movimentos do ritual ocupam espaço suficiente para o público perceber que há ali um conhecimento que não cabe apenas em palavras.
Os diretores evitam transformar a cultura Yanomami em curiosidade antropológica ou espetáculo exótico. O filme concede protagonismo à voz de Davi Kopenawa, reconhecido internacionalmente como uma das principais lideranças indígenas do Brasil. É a partir de seu olhar que somos apresentados aos xapiri, os espíritos que sustentam o mundo, e à ideia de que o céu permanece de pé porque existe uma relação de respeito entre os seres humanos, a natureza e o plano espiritual.
Entre os elementos mais contundentes do filme está a crítica ao chamado “povo da mercadoria”, expressão utilizada para definir uma sociedade orientada pelo consumo, exploração dos recursos naturais e ideia de crescimento ilimitado. É a crítica a um modelo econômico que transforma rios, florestas e vidas humanas em recursos para exploração. O garimpo ilegal surge como a expressão mais evidente dessa lógica, levando destruição ambiental, contaminação dos rios por mercúrio, violência e doenças para o interior dos territórios indígenas.
O documentário também aborda as epidemias conhecidas pelos Yanomami como xawara, enfermidades trazidas por pessoas de fora que historicamente provocaram mortes em larga escala entre os povos originários. A lembrança dessas tragédias ganha ainda mais significado diante das crises sanitárias vividas nas últimas décadas, reforçando a vulnerabilidade das comunidades indígenas diante da invasão constante de seus territórios.
Do ponto de vista cinematográfico, “A Queda do Céu” se destaca pela construção visual. A fotografia explora a grandiosidade da floresta amazônica e a natureza aparece como personagem viva, não apenas cenário. A montagem valoriza o tempo dos acontecimentos e rompe com a necessidade de oferecer respostas rápidas ao espectador. É essa desaceleração que permite uma experiência de contemplação rara no cinema contemporâneo.
A narrativa demonstra sensibilidade ao permitir que os próprios Yanomanis conduzam a narrativa. Essa escolha fortalece o caráter político do documentário, que rompe com uma longa tradição de obras nas quais os povos indígenas aparecem apenas como objeto de observação. Aqui, eles são sujeitos da própria história, apresentando suas preocupações, seus conhecimentos e sua visão sobre o presente e o futuro.
Mais do que um documentário sobre a Amazônia, “A Queda do Céu” apresenta a cosmologia Yanomami e propõe uma reflexão sobre a relação entre humanidade e natureza. A partir do testemunho de Davi Kopenawa, o filme amplia o debate sobre os direitos dos povos originários, a preservação da floresta e os impactos da destruição ambiental. O título remete ao colapso provocado pela devastação da natureza e pelo desrespeito aos conhecimentos ancestrais, estabelecendo um diálogo com temas como o garimpo ilegal, o desmatamento e as mudanças climáticas.
