A “Operação Marias”, realizada em todo o território nacional, prendeu 83 homens agressores de mulheres e suspeitos de abusar sexualmente de crianças e adolescentes em toda Minas Gerais. No Norte do Estado, foram 11 detidos, sendo seis em Montes Claros, dois em Janaúba e três em Rio Pardo de Minas, Espinosa e Januária. Ao todo, foram cumpridos seis mandados de prisão e cinco homens foram presos em flagrante.

A operação é uma estratégia que reúne mais de mil delegados e investigadores para colocar atrás das grades homens que cometem violência contra a mulher, crime que continua a crescer no Estado. Por hora, quatro medidas protetivas são concedidas a mineiras.

De janeiro a outubro deste ano, mais de 32 mil ordens judiciais foram expedidas em Minas – média de 107 por dia.

No início deste mês, O NORTE mostrou que o número de vítimas em Montes Claros havia crescido 5% também de janeiro a outubro, em comparação ao mesmo período do ano passado. Na região, o crescimento foi de 4,4%.

A alta, segundo os especialistas, reflete a maior coragem que as mulheres estão tendo de denunciar. Mas os crimes ainda continuam a acontecer. 

Em Montes Claros, durante a “Operação Marias”, foram realizadas 65 visitas a casas de vítimas de violência doméstica, para analisar descumprimento de lei por parte de agressores. Participaram da operação 22 policiais.

“No Norte de Minas foram 108 alvos de fiscalização por descumprimento de medidas protetivas, ordens judiciais de busca e apreensão e prisões. A operação é de extrema importância para o enfrentamento da violência doméstica e familiar”, afirma o delegado Jurandir Rodrigues, chefe do 11º Departamento de Polícia Civil em Montes Claros.

Realizada simultaneamente em todas as regiões de Minas, a operação faz referência ao Dia Internacional para Eliminação da Violência contra as Mulheres, celebrado na última segunda-feira (25).
 
ENTEADAS
Um dos casos da “Operação Marias” em Montes Claros foi a prisão de um suspeito de estuprar as duas enteadas e engravidar uma delas. De acordo com a Polícia Civil, o homem, de 27 anos, abusava das vítimas de 16 e 11, e a mais velha veio a engravidar quando tinha 12 anos. Ela era estuprada desde os 10, e a suspeita é a de que a de 11 começou a ser abusada há um ano. 

“Os abusos aconteciam dentro de casa. E, quando a enteada ficou grávida, ele a forçou a dizer para os familiares que engravidou de um homem que trabalhava em um circo e ele tinha ido embora da cidade. Então, a criança não tem nome do pai no registro”, conta a delegada responsável pela Delegacia Especializada em Atendimento à Mulher, Karine Maia.

Ainda de acordo com a delegada, o caso veio à tona por ele ter agredido a enteada de 16 anos. “A moça foi bastante agredida pelo autor, que alegava que ela não levava o filho para ele ver. A agressão foi perto da mãe da adolescente e os vizinhos entraram na briga”, explicou.

O mandado de prisão temporária foi expedido pela Justiça no dia 13 deste mês e o homem foi preso no dia 27. Ele foi encontrado em uma obra, onde trabalhava como servente de pedreiro. Resistiu à prisão e tentou fugir, pulando muros. Também foi preso um familiar que tentou ajudá-lo a fugir. 

De acordo com a polícia, as investigações continuam e, mesmo o padrasto tendo confessado que é pai da criança, será feito um exame de DNA. Ele tem várias passagens pela polícia, por furto e roubo.

PALAVRA DO ESPECIALISTA
Os números elevados mostram parte da violência contra a mulher. À medida em que elas estão tomando consciência e coragem para denunciar, estamos tendo noção do tamanho do problema. Agora, conseguimos perceber a ponta do iceberg que estava escondido debaixo d’água. As medidas protetivas são importantes, mas não é possível conter esses casos crescentes só com essas ações ou condenações. É fundamental ter uma medida preventiva, com mudança de valores e de cultura. Não dá para resolver essa questão só por meio da punição.

É preciso construir uma nova geração de homens livres do patriarcalismo. É muito importante que esse tema fosse mais considerado no processo educacional. Tem que ser inserido a partir do ensino fundamental. Só pela lei nós não vamos mudar essa triste realidade.
 
Luiz Flávio Sapori
Sociólogo e ex-secretário-adjunto de Segurança Pública do Estado