Erva milenar, trazida para o Brasil pelos escravos, a maconha não é apenas uma das drogas mais antigas conhecidas pela humanidade, mas também a campeã de apreensões em Minas. Em uma década, 339 mil flagrantes foram registrados pelas forças de segurança no Estado. Uma média de quase cem por dia, segundo dados da Polícia Civil, obtidos por meio da Lei de Acesso à Informação.

Para especialistas, os números, que englobam o período de 2008 a 2018, reforçam a necessidade de mudanças nas políticas do setor, já que o modelo atual tem gerado prisões, confrontos e mortes sem que o problema seja sequer reduzido.

A maconha é a substância ilícita mais consumida no país. Levantamento da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) aponta que 7,7% dos brasileiros de 12 a 65 anos já usaram o produto ao menos uma vez na vida.

As possibilidades de consumo da droga, que pode ser fumada e também ingerida, estão refletidas nas formas como ela tem sido encontrada em todo o território mineiro. 

Em janeiro, um caminhão-tanque foi interceptado com mais de seis toneladas de cannabis em Patos de Minas, no Alto Paranaíba. A apreensão foi a maior em 2019 até o momento. 
 
NORTE DE MINAS
A segunda maior ocorrência foi registrada no Norte de Minas, no final de junho. A Polícia Rodoviária Federal (PRF) encontrou três toneladas de maconha e 50 quilos de cocaína em um caminhão que transportava repolhos, na BR-251, em Montes Claros.

De acordo com o delegado Herivelton Ruas Santana, da Delegacia Regional Especializada Antidrogas, as apreensões na região acompanham o restante do Estado. 

“Aqui a droga que mais se apreende é também a maconha. Nos últimos anos, operações da Polícia Civil apreenderam quase uma tonelada da droga”, disse lembrando que a PC tem feito recorrentemente, com autorização da Justiça, a incineração em parceria com uma empresa no Distrito Industrial da cidade.

Ainda de acordo com o delegado, geralmente a maconha apreendida em Montes Claros tem origem no Paraguai com destino ao Nordeste. “Ela passa por Montes Claros porque a cidade possui um dos principais entroncamentos rodoviários, dando acesso a diversas regiões do país”, afirma.
(Colaborou Carlos Castro Jr.)


Lei é ineficiente
Advogado criminalista e membro do Instituto de Ciências Penais (ICP), Tiago Resende afirma que o aumento das apreensões de drogas demonstra que o agravamento da legislação não tem sido eficiente.

“Parte da solução é o trabalho de conscientização sobre o uso das drogas, mais do que a aplicação irrestrita da lei penal. Isso deu muito certo em relação ao tabagismo, sem que se proibisse o uso do cigarro”, compara.

Resende destaca existir vários exemplos positivos pelo mundo. “Se queremos que as pessoas deixem de consumir, não estamos conseguindo. Chegamos a um ponto em que manter a mesma postura não faz mais sentido”. 

Para as forças de segurança, no entanto, nenhuma mudança no modelo de atuação é cogitado no momento. Por nota, a Polícia Civil informou que “caso esse trabalho qualificado não estivesse em execução, o quadro de uso e consumo poderia ser pior ao que está hoje, uma vez que é considerado um problema crônico em todo o país”.