Riscos psicossociais

Saúde mental se torna desafio estratégico para empresas na era da IA

Vanessa Araújo
vanraraujo@gmail.com
Publicado em 01/06/2026 às 19:00.
O psicólogo Eduardo Borges alerta que as empresas precisam identificar os riscos psicossociais existentes, mapeá-los e fazer a gestão (Arquivo pessoal)
O psicólogo Eduardo Borges alerta que as empresas precisam identificar os riscos psicossociais existentes, mapeá-los e fazer a gestão (Arquivo pessoal)

O Brasil registrou mais de 546 mil afastamentos do trabalho por transtornos mentais e comportamentais em 2025, segundo dados da Previdência Social, um aumento de 15,6% em relação ao ano anterior. Em meio ao crescimento dos casos de ansiedade, depressão e esgotamento emocional, especialistas apontam que as rápidas transformações provocadas pela inteligência artificial no mercado de trabalho têm contribuído para o aumento da insegurança entre profissionais e reforçado a necessidade de as empresas investirem em gestão de pessoas e saúde mental.

A inteligência artificial tem transformado a rotina das empresas e alterado a forma como profissionais se relacionam com o trabalho. Se por um lado a tecnologia amplia a produtividade e automatiza processos, por outro tem provocado medo da substituição profissional, dificuldades de adaptação e impactos diretos na saúde mental dos trabalhadores.

Para o psicólogo Eduardo Borges, a rápida evolução da inteligência artificial tem gerado um cenário de adaptação constante para muitos profissionais. “A inteligência artificial tem mudado drasticamente as relações de trabalho, trazendo certa insegurança e, às vezes, segurança para quem consegue lidar com ela. Aqueles que não conseguem acompanhar essa inovação tecnológica acabam se frustrando, o que pode acarretar problemas mentais e insegurança psicológica”, afirma.

Segundo ele, existe uma dualidade no impacto da tecnologia. Ao mesmo tempo em que a IA gera receios, também oferece oportunidades para quem consegue utilizá-la como ferramenta de apoio. “Mesmo trazendo insegurança, ela também traz benefícios. O trabalhador precisa buscar esse equilíbrio entre o benefício e a insegurança”, explica.

O medo diante das mudanças tecnológicas, de acordo com o especialista, pode comprometer o desempenho profissional e afetar diretamente aspectos cognitivos importantes para o trabalho. “Os trabalhadores ficam extremamente abalados emocionalmente em função do medo que existe do novo. A IA, por ser algo muito recente no mercado, acaba trazendo essa insegurança. Isso afeta diretamente a produtividade, a capacidade de concentração, o foco e outras habilidades.”

A preocupação com a saúde mental também passou a integrar de forma mais efetiva as exigências legais relacionadas ao ambiente corporativo. Com as atualizações da Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1), as empresas passaram a ter a obrigação de identificar, avaliar e gerenciar riscos psicossociais relacionados ao trabalho, incluindo fatores que podem desencadear sofrimento emocional e adoecimento mental.

Para Eduardo Borges, a gestão de pessoas passa a ocupar papel central nesse cenário. “A saúde mental dentro das empresas precisa ser gerida. As empresas precisam identificar os riscos psicossociais existentes, mapeá-los e fazer a gestão. Dessa forma, conseguem minimizar os impactos desses riscos na saúde dos trabalhadores e criar ambientes produtivos, com baixa rotatividade e que façam bem para o colaborador física e emocionalmente.”

O psicólogo destaca que a transparência na gestão e a construção de ambientes organizacionais mais equilibrados são fatores determinantes para reduzir o adoecimento emocional. “Hoje, a gestão de pessoas precisa ser clara e transparente. Não pode haver sobrecarga, subcarga, desigualdade, falta de recompensa ou ausência de programas de bem-estar.”

Segundo ele, um dos principais erros das empresas é negligenciar a sensação de segurança dos trabalhadores diante das mudanças tecnológicas. “O erro acontece quando as empresas não oferecem seguranças aos trabalhadores.”

Os sinais de que a saúde mental está comprometida costumam aparecer no cotidiano das equipes. Baixa produtividade, irritabilidade, insatisfação, intolerância e desinteresse podem indicar quadros de esgotamento emocional. “Tudo isso aparece quando o profissional está em fase de esgotamento”, alerta.

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