Cuidado humanizado

Projeto do HCMR leva pacientes ao ar livre durante a internação

Márcia Vieira
marciavieirayellow@yahoo.com.br
Publicado em 07/07/2026 às 19:00.
Ramon Fernandes, internado há mais de 50 dias : “aqui fora a gente consegue se distrair um pouco e amenizar a dor” (Márcia Vieira)
Ramon Fernandes, internado há mais de 50 dias : “aqui fora a gente consegue se distrair um pouco e amenizar a dor” (Márcia Vieira)

“Depois de tanto tempo isolado, é como se tivesse um pedacinho da gente lá fora”. Essas são as palavras de Ramon Fernandes, de 32 anos, internado há mais de 50 dias no Hospital das Clínicas Dr. Mário Ribeiro da Silveira (HCMR), em Montes Claros. Morando no Canadá, ele retornou à cidade para visitar familiares, mas foi surpreendido com uma enfermidade que o levou à internação. Convidado pela equipe médica para participar da primeira atividade do projeto “Além do Leito”, ele não titubeou. “É muito importante para refrescar a mente, sair um pouco da pressão emocional que é estar dentro de um hospital e saber que estamos com um problema, uma limitação. Aqui fora a gente consegue distrair um pouco, ameniza a dor”, declarou o jovem que ouvia com atenção a apresentação da orquestra do Exército, sob o pôr do sol. A alegria no final de tarde renovou o ânimo e Ramon disse, confiante, que planeja voltar a residir no Canadá assim que receber alta.

O programa foi criado para otimizar o tratamento e beneficiar pacientes acamados. Acompanhados por uma equipe multiprofissional, eles são levados à área externa do hospital, cercada por verde, e com a presença de familiares, assistem a apresentações musicais e desfrutam do contato com a natureza. Luciana Santana, diretora técnica do HCMR explica que o sistema já é adotado em grandes hospitais mundo afora e vai além da cura do corpo. “É cura para a alma. A gente recebe os pacientes nas horas mais difíceis de suas vidas. Somos conhecidos como um hospital que tem um cuidado humanizado, mas esse é um momento especial, que marca o início de mais um passo nessa assistência. Uma orquestra ao vivo, um pôr do sol, para que essa permanência deles seja algo mais leve e o menos desconfortável possível”, disse. A médica ressalta que é reconfortante trabalhar em um ambiente de sensibilidade. “Nos torna mais cooperativos, colaborativos, enaltece o trabalho em grupo”.

O projeto passa para uma hospitalização cada vez mais humanizada e ganha o reconhecimento da comunidade. “É uma iniciativa maravilhosa. Meu esposo, se ainda estivesse aqui, ia amar se pudesse dar um respiro lá fora. Quando estava melhor, ele adorava ficar olhando pela janela do CTI”, comentou a jornalista Ana Karienina Amaral, cujo marido passou pela internação na unidade hospitalar.

Reafirmar a humanização, prática adotada pelo HCMR desde a sua inauguração, é, para Ana Clara Oliveira Santos, médica especialista em cuidados paliativos e membro da equipe idealizadora do projeto, um dos sentidos da proposta. “Isso aqui não é só um passeio. É ciência pura. Estudos evidenciam que pacientes que têm contato com o vento, com o sol, com outras pessoas, otimizam a resposta a qualquer tratamento, inclusive resposta à dor. A internação é muito difícil, tira a autonomia do paciente, o direito de ir e vir. Nesse projeto, a rotina é quebrada. Há lugares em que já existem até CTIs ao ar livre”, afirma. 

Para Ana Clara, a acolhida deve envolver tanto o paciente quanto a família. “É preciso entender a dor e o sofrimento do outro. A doença é a interrupção da saúde, é uma quebra de expectativa. Quando você traz o paciente para fora, a doença deixa de ser o centro e a pessoa passa a ser o centro. É isso que a gente preconiza”.

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