Praticidade e risco

O avanço dos ultraprocessados na mesa dos brasileiros

Vanessa Araújo
vanraraujo@gmail.com
Publicado em 09/06/2026 às 19:00.
Bolachas, sucos e pratos prontos costumam ser mais consumidos pela praticidade (Vanessa Araújo)
Bolachas, sucos e pratos prontos costumam ser mais consumidos pela praticidade (Vanessa Araújo)

Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostram que os alimentos ultraprocessados já representam 18,4% das calorias adquiridas pelos brasileiros para consumo em casa. Entre adolescentes, a participação é ainda maior, chegando a 26,7% das calorias consumidas.

Estudos mais recentes apontam que essa participação continua crescendo. Levantamento publicado pela Universidade de São Paulo (USP) estima que os ultraprocessados já respondem por cerca de 20% das calorias consumidas no país. Além disso, pesquisadores identificaram que o consumo desses produtos mais que dobrou desde os anos 1980, passando de aproximadamente 10% para cerca de 23% da ingestão calórica dos brasileiros.

Para a nutricionista Mayra Almeida, enxergar a alimentação saudável apenas como uma escolha individual ignora aspectos fundamentais da realidade brasileira. “Nem todos têm a mesma oportunidade para fazer escolhas saudáveis. A renda, a disponibilidade de feiras e mercados, o acesso aos alimentos, as condições de trabalho, a educação alimentar e a desigualdade social influenciam diretamente a alimentação. Por isso, a alimentação também é uma questão de saúde pública.”

A avaliação encontra respaldo em indicadores nacionais. Em 2023, 27,6% dos domicílios brasileiros ainda enfrentavam algum grau de insegurança alimentar, segundo o IBGE. Isso significa que milhões de famílias conviviam com dificuldades de acesso regular a alimentos adequados.

Nesse contexto, produtos industrializados acabam ocupando espaço crescente na rotina das famílias. Segundo Mayra, a falta de tempo também tem peso importante nessa equação. “Existe muita relação entre rotina exaustiva de trabalho, falta de tempo e piora da qualidade da alimentação. A pessoa procura algo mais rápido e mais prático. Vai em busca de fast foods, alimentos industrializados e refeições prontas. Isso aparece muito na prática devido à correria, à exaustão e à falta de tempo.”

Ludmila Máxima é autônoma e mãe de dois filhos, e conta que compra ultraprocessados pela praticidade e também pelo hábito. “Hoje em dia também está mais difícil para comprar produtos naturais”. Ela também considera complicado identificar os alimentos pelas embalagens. “Às vezes parece ser natural, mas não é”, lamenta.

Ellen Pereira e Cristina Neri também tentam evitar, mas ainda contam com a facilidade. “Não conseguimos tirar as bolachas, porque é um lanche muito prático”, afirmam. “Não acho difícil encontrar alimentos naturais, mas o preço acaba sendo mais alto”, conta Ellen. Já o professor Vanilson Alves conta que conseguiu fazer uma redução do consumo na rotina da família. “Alguns embutidos nós conseguimos tirar”, conta.

Embora sejam vistos como soluções práticas, os ultraprocessados apresentam baixo valor nutricional e estão associados a diversos problemas de saúde. Pesquisas relacionam o consumo frequente desses produtos ao aumento dos casos de obesidade, diabetes, hipertensão arterial, colesterol elevado e doenças cardiovasculares.

Os impactos também aparecem nas estatísticas nacionais. Um estudo da Fiocruz estima que cerca de 57 mil mortes prematuras por ano no Brasil estejam relacionadas ao consumo de ultraprocessados. Outra análise aponta que uma em cada dez mortes no país pode ter ligação com esse padrão alimentar. Além das consequências para a saúde, os custos econômicos são expressivos. Pesquisas indicam que as doenças e mortes associadas aos ultraprocessados geram prejuízos superiores a R$ 10 bilhões por ano ao país.

Diante desse cenário, especialistas defendem políticas públicas capazes de ampliar o acesso à alimentação saudável. Entre as medidas apontadas por Mayra Almeida estão a redução do preço dos alimentos frescos por meio do fortalecimento da agricultura familiar, a ampliação de feiras e mercados populares, o fortalecimento da alimentação escolar e a regulação da publicidade de alimentos ultraprocessados. “Também é importante ampliar o acesso a alimentos frescos em regiões mais carentes. Isso ajuda as pessoas a não precisarem escolher entre economia, praticidade e nutrição.”

A nutricionista destaca ainda que campanhas focadas apenas em disciplina alimentar podem gerar efeitos negativos. “Esses discursos podem culpabilizar pessoas que enfrentam dificuldades econômicas, sociais ou de saúde para manter uma alimentação considerada ideal. O mais adequado é incentivar hábitos saudáveis de forma realista e empática, reconhecendo que cada pessoa vive uma realidade diferente”, finaliza a nutricionista.

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