Em meio a filas que não avançam e uma população descontente com o atendimento de saúde municipal, a Prefeitura de Montes Claros anunciou o projeto de um hospital municipal que, segundo o prefeito Guilherme Guimarães, será construído na cidade, com previsão de ficar pronto somente em 2029. O projeto é de uma unidade com capacidade para 212 leitos e atendimento 24 horas. A construção terá parceria do governo do Estado, que pretende arcar com cerca de R$ 80 milhões em equipamentos, enquanto o município vai desembolsar R$ 220 milhões na construção do espaço, localizado próximo à prefeitura.
A cidade conta atualmente com cinco hospitais que se dividem no atendimento à população de Montes Claros e região, além das unidades básicas de saúde e da UPA. Entretanto, para a população, o anúncio causou estranheza, já que o problema da saúde não está relacionado à falta de estrutura física, mas sim à demora nos atendimentos e, principalmente realização de exames e cirurgias. “Paredes não faltam. O que a gente quer é ter acesso ao atendimento médico, e isso não acontece nas UBSs. Os profissionais não estão disponíveis quando a gente precisa deles. Faltam, tiram férias e não colocam ninguém no lugar. Reduzem o horário de atendimento, os exames não têm fluxo e a regulação é desastrosa. Não tem transparência e a fila não anda”, disse Mayounara Barbosa, que soube do evento porque precisou ir à prefeitura resolver uma questão e, chegando lá, se deparou com outro problema. O evento foi realizado na sede da nova prefeitura e, além de alguns convidados, estavam presentes servidores, que interromperam a jornada de
trabalho para bater palmas para o projeto. O fato causou indignação em Mayounara. “Os servidores não estavam em seus postos de trabalho. Estavam no evento. Eu fiquei mais de uma hora esperando, até encontrarem alguém para me atender no local”, disse.
Janete Cleia Silva também está indignada com as situações pelas quais tem passado na busca pela assistência. A entrada no climatério já aconteceu, mas o tratamento não se concretiza. “Saúde da mulher não existe. Fiquei dois anos esperando uma consulta. O exame de sangue que a médica pediu nesse mesmo período só consegui esse mês. A ultrassonografia, pedida em 2024, não sai de jeito nenhum. Só existe promessa. Te colocam numa fila de exames e aí a gente pode esquecer. Nunca chega a vez. A médica pediu que, quando eu estivesse com todos os exames na mão, ligasse para ela. Vou ligar como, se nunca consigo completar?”, desabafa.
Janete acrescenta que não é a única na família que passa pelo que considera descaso. “Minha mãe é idosa e tudo para ela demora demais. Antes não era assim. Um exame saía em até 15 dias. Hoje em dia, está péssimo o atendimento. Preciso também de um exame chamado MAPA e não consigo. Minha filha precisa de um raio-X. Enfim, não temos atendimento em saúde pelo município”, declarou enquanto estava em uma clínica particular com o filho, para submetê-lo a uma tomografia. “Estou sem emprego. Minha mãe pagou hoje os R$ 600 para o meu filho fazer a tomografia, porque é urgente. Se esperar pelo município, a gente morre”, lamentou.
Questionado sobre a situação alegada pela população, que utiliza os canais do Ministério da Saúde para relatar o que está acontecendo em Montes Claros, o prefeito não sinalizou com uma solução a curto prazo e deu a entender que os problemas só serão solucionados a partir do novo hospital. Porém, admitiu que a obra não ficará pronta em menos de dois anos e meio. A previsão do processo de licitação é fevereiro de 2027, “se tudo correr bem”, disse o prefeito em coletiva.

