
O mês de janeiro é marcado pela campanha “Janeiro Roxo”, de conscientização e combate à hanseníase, com o dia “D” no último domingo do mês. Em Minas Gerais, dados oficiais do Estado apontam que em 2023/2024 foram mais de 1,5 mil diagnósticos. Dados divulgados pela Superintendência Regional de Saúde (SRS) de Montes Claros apontaram que, no início de 2025, a região registrou um total de 1.346 casos de hanseníase notificados, considerando os 54 municípios de abrangência. A maior parte deles em Montes Claros, com 1.252 casos registrados no período de 2010 a 2024, representando 68,27% dos casos.
No início de 2025, os dados da SRS indicaram 358 pacientes com hanseníase encerrados por cura. Um destes foi o da servidora pública Elenice Nascimento, que, embora não apresentasse manchas visíveis na pele, uma das características mais frequentes na enfermidade, teve a indicação de uma médica para fazer o teste.
“Eu tinha fibromialgia e, além das dores, comecei a sentir muita dormência nas mãos, nos pés, nas extremidades. Acordava com os dedos atrofiados e meus dedinhos do pé começaram a virar para baixo, então a médica do PSF perguntou se eu já havia feito o teste para hanseníase. Até então, eu não tinha nenhum conhecimento sobre a doença”, conta Elenice, que, encaminhada ao setor responsável, se submeteu aos testes. “Eles raspam as duas orelhas, os dois cotovelos e fazem a coleta para ver se tem o bacilo. Os exames são de sangue e clínico, que é com água quente e água gelada. No meu caso eram pequenas e invisíveis as manchas. Só mesmo a profissional foi capaz de notar”, disse.
Com o resultado positivo, a servidora começou a fazer o tratamento. “Não é um processo fácil. Não consegui me adaptar à primeira medicação, tive alergia e a medicação teve que ser alterada. Eu tomava uma vez por mês no local do tratamento e uma dosagem menor em casa. Para mim, foi muito difícil. Além da rejeição do primeiro medicamento, tive ânsias de vômito, principalmente no dia que ia à medicação assistida. Ficava acabada. Hoje, eu tenho uma pele mais escurecida devido à medicação e não posso tomar sol. Parei com os remédios, a hanseníase foi bloqueada, mas faço acompanhamento por causa das sequelas”, relata. Sobre o preconceito, Elenice reafirma a sua intenção de falar sem reservas para ajudar a combatê-lo. “Muita gente pode ter a doença e não tem o conhecimento. Sem saber, acaba transmitindo. Não é uma pandemia, mas acho importante falar”, reforça.
A dermatologista Bárbara Lidório destaca que a hanseníase, chamada de lepra, era uma doença bastante estigmatizada no passado, e as pessoas eram contidas, encaminhadas aos leprosários e isoladas da sociedade por falta de tratamento e conhecimento sobre a doença. Hoje em dia, houve avanço e os pacientes não são mais tratados com tanto preconceito. A doença, segundo a médica, é causada pela bactéria Mycobacterium leprae e transmitida por gotículas de saliva de pessoas infectadas que não estão em tratamento, por meio do contato próximo e prolongado.
“O diagnóstico se baseia na identificação de manchas na pele (claras, avermelhadas, amarronzadas), com alteração da sensibilidade e/ou comprometimento de nervos periféricos. Também é possível que sejam realizados exames complementares, como a baciloscopia”, afirma. A médica ressalta que acontecem com frequência casos de pessoas com queixa de dores crônicas ou dormências sem diagnóstico adequado, como foi o caso de Elenice, daí a necessidade de avaliação do dermatologista. “Por meio do exame dos nervos, é possível identificar a doença na pessoa sem nenhuma mancha de pele”, destaca. Quanto ao tratamento, a profissional declara que dura em média de seis a 12 meses. “Em casos leves, a sensibilidade retorna, mas dependendo do grau de acometimento dos nervos, pode ser irreversível”, conclui.
