
O Brasil está entre os países que mais utilizam redes sociais no mundo. Cerca de 150 milhões de brasileiros mantêm perfis ativos nessas plataformas, o equivalente a mais de 70% da população. Além disso, os brasileiros passam, em média, 9 horas e 9 minutos por dia conectados à internet, sendo 5 horas e 12 minutos pelo celular, principal meio de acesso às redes sociais.
Apesar de aproximarem pessoas, ampliarem o acesso à informação e criarem oportunidades de trabalho e negócios, especialistas alertam que o uso excessivo também cobra um preço da saúde mental. Ansiedade, baixa autoestima, sensação de fracasso e dificuldade de concentração estão entre os efeitos associados ao consumo intenso de conteúdos.
Na Psicologia, esse fenômeno é conhecido como comparação social. Daniel destaca que o comportamento sempre existiu, mas ganhou uma dimensão inédita com as plataformas digitais. “Na nossa evolução, convivíamos diariamente com grupos de algumas dezenas de pessoas. Hoje nos comparamos, ao mesmo tempo, com milhares de indivíduos que parecem mais bonitos, mais felizes e mais bem-sucedidos. O resultado costuma ser a sensação de que estamos ficando para trás”, destaca o terapeuta.
Adolescentes e jovens adultos são os mais vulneráveis. “Nessa fase, eles ainda estão construindo a própria identidade. A opinião dos outros pesa muito, o cérebro ainda está amadurecendo e o sentimento de pertencimento parece uma questão de sobrevivência. Quando o feed mostra que todos são mais bonitos, mais ricos ou mais felizes, é fácil acreditar que o problema está em você”, esclarece Daniel Arthur.
Outro fator é a própria lógica das plataformas. “O objetivo da rede social não é que você fique feliz. O objetivo é que você fique”, resume Daniel. Segundo ele, algoritmos utilizam mecanismos como o reforço intermitente: curtidas, comentários e notificações surgem de forma imprevisível, estimulando o retorno constante aos aplicativos.
Ao mesmo tempo, os algoritmos priorizam conteúdos com maior potencial de engajamento, ampliando a exposição a imagens idealizadas. “Vale fazer uma pergunta simples: se ninguém pudesse ver essa conquista ou essa foto, ela ainda teria valor para mim? Se a resposta for não, talvez a validação esteja ocupando um espaço grande demais na vida da pessoa”, provoca.
O especialista ressalta que isso não significa, necessariamente, a existência de um transtorno psicológico, mas representa um fator de risco para ansiedade, depressão, baixa autoestima e comportamentos compulsivos, principalmente quando interfere no sono, no trabalho, nos relacionamentos ou na capacidade de viver o momento presente.
QUANDO SAIR DAS REDES VIROU UMA NECESSIDADE
A estudante de Medicina e maquiadora Jeniffer Maia, de 25 anos, viveu esse processo. Usuária de redes sociais desde a pré-adolescência, utilizou a internet por muitos anos como ferramenta de trabalho para custear os estudos e conquistar a aprovação no curso de Medicina. Com o tempo, percebeu que a relação com as plataformas havia mudado. “As redes sociais se tornaram um ambiente muito tóxico. Parece que se tornou essencial mostrar a própria vida e parecer estar melhor do que os outros. Se você não é visto, você não é lembrado”, relata.
Ela conta que começou a perceber sinais de dependência, passando horas no Instagram, perdendo o foco nos estudos e até deixando de dormir. Após o fim de um relacionamento, decidiu ficar seis meses longe da plataforma. “Foi um período de menos ansiedade, mais foco na faculdade e melhor rendimento”, revela. Neste ano, repetiu a experiência durante a Quaresma. O período inicial de 40 dias acabou sendo estendido para quase três meses. “Isso me ajudou a controlar melhor a ansiedade, voltar a ler com frequência e retomar projetos que estavam abandonados. Hoje, me afastar das redes sociais, ou pelo menos tirar os aplicativos da tela principal por um tempo, virou uma necessidade de sobrevivência. Curiosamente, deixar de ser vista passou a ser um alívio”, reflete.
Para Daniel Arthur, reduzir os impactos das redes sociais exige mudanças individuais, educação digital e maior responsabilidade das plataformas. Entre as medidas recomendadas estão reduzir notificações, limitar o consumo passivo de conteúdo, selecionar melhor os perfis acompanhados e fortalecer vínculos presenciais.
“As pesquisas mostram que essas mudanças estão associadas a um maior bem-estar psicológico. Também é importante desenvolver autoestima, senso crítico e pertencimento fora do ambiente digital”, analisa. Na avaliação do psicólogo, o desafio não está em abandonar completamente as redes sociais, mas em impedir que elas passem a definir o valor das pessoas. “As redes podem ser ferramentas úteis. O problema começa quando elas deixam de ser um instrumento e passam a determinar como enxergamos a nós mesmos”, finaliza o terapeuta.
