
Moradores de Montes Claros foram surpreendidos nos últimos dias com o alerta envolvendo lotes de detergentes da marca Ypê, suspeitos de contaminação pela bactéria Pseudomonas aeruginosa, também conhecida como Pseudomonas pyocyanea. A repercussão nacional do caso levou consumidores da cidade a conferirem embalagens e números de lote em supermercados e residências. Os produtos investigados são os lotes terminados em 1, recolhidos preventivamente por determinação de órgãos de fiscalização. Segundo a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), a manutenção ou não da suspensão deve ser decidida nesta quarta-feira (13).
O doutorando em Biotecnologia e professor de Química do Instituto Federal do Norte de Minas (IFNMG), Pedro Henrique de Oliveira Gomes, explica que uma das características mais preocupantes da bactéria Pseudomonas pyocyanea está em sua parede celular, estrutura que funciona como uma espécie de “pele” que delimita o micro-organismo. Segundo o professor, essa composição faz com que a bactéria seja classificada como “gram-negativa”, grupo conhecido pela maior complexidade estrutural, o que aumenta sua resistência a antibióticos e alguns antissépticos. Em determinados casos, ela pode provocar infecções graves.
“Além da formação de colônias, ela possui a capacidade de produzir biofilmes, tanto no organismo humano, quanto em superfícies, como, por exemplo, em encanamentos, nesse estágio sua presença se torna ainda mais preocupante. Esse biofilme aumenta sua resistência em até 100 vezes a antibióticos, tendo uma estrutura complexa, viscosa e altamente resistente, frequentemente descrita como um ‘bunker’ ou película protetora que permite à bactéria sobreviver em ambientes adversos, tanto industriais quanto biológicos. Quando no corpo humano, sobrecarrega o sistema imunológico ocasionando diversos sintomas. E quando em encanamentos, podem se tornar a principal causa das infecções hospitalares”, pondera.
De acordo com o professor, as bactérias podem ser encontradas em todos os lugares e ambientes, desde o organismo humano até ambientes considerados extremos para sobrevida de um ser vivo comum, como fontes termais e vulcões. No caso da bactéria Pseudomonas aeruginosa, ela tem como ambiente principal o solo e ambientes úmidos.
“Ela pode viver e se proliferar em condições adversas, tais como água, esgoto, encanamentos, piscinas e banheiras, ambientes hospitalares, cosméticos e produtos de higiene e limpeza, tais como detergentes, sabonetes líquidos, e outros produtos com água na composição”, finaliza.
LOTES CONTAMINADOS
Em nota divulgada na última semana, a Anvisa informou que a avaliação de risco sanitário foi realizada com base nas irregularidades identificadas na fábrica responsável pelos produtos. Na última sexta-feira (8), a Ypê conseguiu, por meio de recurso, a liberação para voltar a comercializar os itens que haviam sido suspensos. Apesar disso, a agência manteve a recomendação para que os consumidores não utilizem os produtos envolvidos.
O detergente que a gerente administrativa, Islen Karen Magalhães, estava usando para lavar louças faz parte dos lotes contaminados. No entanto, quando o aviso de contaminação foi comunicado à população, o produto já estava no final. “Não tive problemas durante a utilização e tenho mais dois aqui, do mesmo lote. Não pretendo parar de usar, pois não notei diferença”, disse.
A Ypê afirma que possui fundamentação científica baseada em testes e laudos técnicos independentes que atestam a segurança de seus produtos das categorias lava-louças, lava-louças concentrado, lava-roupas líquido e desinfetante. Segundo a empresa, esses documentos indicam que os itens não representam risco ao consumidor. A empresa afirma ainda que mantém diálogo contínuo com a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e que, com a apresentação de informações técnicas adicionais, confia na reversão da decisão no menor prazo possível.
