Julho Verde

Dentista é aliado no tratamento do câncer

Márcia Vieira
marciavieirayellow@yahoo.com.br
Publicado em 21/07/2026 às 19:00.
Cristina Durães diz que o acompanhamento odontológico é essencial em todas as fases do paciente, do diagnóstico à reabilitação (arquivo pessoal)
Cristina Durães diz que o acompanhamento odontológico é essencial em todas as fases do paciente, do diagnóstico à reabilitação (arquivo pessoal)

O Registro Hospitalar de Câncer (RHC) do Instituto Nacional do Câncer (INCA), principal referência do Ministério da Saúde para informações e políticas de controle do câncer no Brasil, registrou 145.365 casos diagnosticados de câncer de cabeça e pescoço, entre 2000 e 2017. Segundo o Instituto, os cânceres de cabeça e pescoço aparecem como os tumores que merecem maior atenção no Brasil e na população masculina, a prevalência é maior. Entre diagnóstico e tratamento, o acompanhamento odontológico especializado é uma ferramenta essencial e pouco conhecida. A advogada Bruna Lissa conta que o pai teve CA na cabeça e faleceu em 2017 devido a complicações de saúde provocadas pelo tumor. “Ele fez uma primeira cirurgia em 2014, após um ano voltou e tentamos uma nova, mas não houve tempo. Ele entrou em estado de vigília e nunca mais acordou”, relata Bruna. No período em que esteve doente, disse: “ele fazia limpeza dos dentes com a fono. Hoje sabemos do tratamento odontológico específico, mas na ocasião não era difundido”.

Doutora em ciências da saúde e especialista em odontologia hospitalar e prótese bucomaxilofacial, Cristina Paixão Durães alerta que o cirurgião dentista tem um papel essencial na prevenção, diagnóstico precoce e acompanhamento dos pacientes. “Realizamos um exame minucioso de toda a cavidade oral e estruturas adjacentes, que ajudam na identificação de lesões suspeitas em fase inicial, ou mesmo nos casos avançados, encaminhando o paciente para tratamento”, destaca. De acordo com a especialista, feridas na boca que não cicatrizam e não apresentam melhora em até 15 dias são os sinais mais evidentes da enfermidade. Outros sinais são manchas brancas ou avermelhadas, caroços no pescoço, dificuldade ou dor para engolir, rouquidão persistente, sangramentos sem causa aparente, dor de garganta que não melhora e sensação de dormência na boca ou na língua. Se o dentista percebe alterações, pode fazer biópsia ou encaminhar o paciente. “Muitas vezes, os dentistas costumam perceber mudanças que passam despercebidas pelo próprio paciente, como dificuldade para comer, perda de peso, alterações na fala, presença de feridas persistentes ou aumento de volume no pescoço. Essa observação pode levar ao diagnóstico precoce e fazer toda a diferença no prognóstico”, destacou.

Na fase de tratamento oncológico, o paciente pode sofrer com efeitos adversos agudos ou crônicos, tais como mucosite oral, boca seca, diminuição da saliva, alterações do paladar, dificuldade para mastigar e engolir, infecções por fungos, maior risco de cáries, sensibilidade dentária e trismo. Em pacientes irradiados na região da cabeça e pescoço, há risco de osteorradionecrose, complicação que pode levar à morte de parte do tecido ósseo. “O acompanhamento odontológico reduz significativamente essas complicações. O ideal é que o cirurgião-dentista participe de todas as fases do tratamento oncológico. Antes do início da quimioterapia ou radioterapia, realizamos a adequação do meio bucal para reduzir riscos de complicações. Durante o tratamento, acompanhamos o paciente para prevenir e controlar efeitos adversos. Após a conclusão, seguimos monitorando a saúde bucal e realizando a reabilitação necessária, além de prevenir complicações como cáries dentais, extração dentária e osteorradionecrose”, afirma Cristina.
 
RISCO E PREVENÇÃO
Os principais fatores de risco para o câncer de cabeça e pescoço são o tabagismo e o consumo excessivo de bebidas alcoólicas. “Quando associados, esses hábitos aumentam o risco de desenvolvimento da doença”, alerta a dentista. A prevenção, além de evitar álcool e fumo, inclui o uso de preservativos nas relações sexuais e vacina para evitar infecção pelo HPV, que desencadeia o câncer de orofaringe, proteger os lábios da exposição solar com protetor labial com filtro solar, manter boa higiene bucal, ter uma alimentação saudável e realizar consultas odontológicas periódicas. No Julho Verde, mês dedicado à conscientização e prevenção do câncer de cabeça e pescoço, Cristina diz que gostaria que todos soubessem que a doença tem grandes chances de cura quando diagnosticada precocemente. “Nenhuma ferida na boca que persiste por mais de 15 dias deve ser ignorada. Cuidar da saúde bucal é cuidar da saúde como um todo, e procurar atendimento ao primeiro sinal de alteração pode salvar vidas”, frisa.

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