O Dia Mundial de Prevenção ao Suicídio é celebrado em 10 de setembro. A data foi instituída pela International Association for Suicide Prevention (IASP) e endossada pela Organização Mundial da Saúde (OMS) para ampliar a conscientização sobre o tema, reduzir o estigma e estimular ações de prevenção. Entre 2024 e 2026, a campanha internacional tem como tema “Mudar a comunicação. Começar a conversa”, reforçando que falar sobre suicídio de forma responsável pode ajudar a aproximar pessoas em sofrimento dos serviços de apoio.
A dimensão do problema aparece nos dados de mortalidade. O Brasil registrou mais de 147 mil mortes por suicídio entre 2011 e 2022, e os homens representam cerca de 79% dos registros. Os números, no entanto, não significam que o comportamento possa ser atribuído exclusivamente à existência de um transtorno mental. O Ministério da Saúde classifica o suicídio como um fenômeno complexo e multifatorial, relacionado a aspectos individuais, sociais, econômicos, familiares e culturais. Depressão, ansiedade, perdas, conflitos, violência, dificuldades financeiras, isolamento e sofrimento no trabalho podem estar entre os fatores envolvidos.
Para o psicólogo Daniel Arthur, é importante compreender que o sofrimento faz parte da experiência humana e que nem toda emoção difícil representa adoecimento. “Nem todo sofrimento significa adoecimento. O sinal de atenção aparece quando esse sofrimento se torna persistente, intenso ou começa a comprometer a vida da pessoa: sono, trabalho, estudos, relações, autocuidado ou capacidade de sentir prazer. Eu costumo pensar em três critérios: intensidade, duração e prejuízo. Se aquilo está forte demais, dura mais do que seria esperado ou começa a impedir a pessoa de viver como vivia antes, vale procurar ajuda”, analisa.
A dificuldade de falar sobre o assunto também pode afastar pessoas em sofrimento da rede de apoio. Para Daniel, a busca por acompanhamento psicológico não deve ocorrer apenas quando uma crise já está instalada. “Precisamos mudar a ideia de que psicólogo é o profissional procurado apenas quando algo deu errado ou quando já não conseguimos lidar com uma questão. A psicoterapia pode ajudar a perceber padrões antes que se transformem em crises: dificuldades nos relacionamentos, excesso de cobrança, problemas com limites, estresse, ansiedade ou formas pouco saudáveis de lidar com as emoções”, avalia.
Mas como ajudar alguém que não está bem? O psicólogo defende que, nesses momentos, a presença e a escuta podem ser mais importantes do que conselhos ou tentativas de encontrar soluções imediatas. “Em vez de dizer ‘você precisa ser forte’, pode ser mais acolhedor dizer: ‘percebi que você não está bem. Se quiser conversar, estou aqui. Como posso estar ao seu lado neste momento?’ Não precisamos diagnosticar, resolver tudo ou encontrar a frase perfeita. Muitas vezes, o mais importante é escutar com atenção, respeito e cuidado, sem minimizar o sofrimento da outra pessoa ou pressioná-la a melhorar rapidamente”, defende o especialista.
Daniel também ressalta que oferecer apoio não significa assumir sozinho a responsabilidade pelo sofrimento do outro. “É reconhecer o sofrimento, respeitar o tempo da pessoa e mostrar que ela não precisa atravessar aquele momento completamente sozinha. Podemos apoiar, acompanhar e, quando necessário, incentivar a busca por ajuda profissional — sem transformar esse apoio na obrigação de resolver a dor do outro”, finaliza.
ONDE BUSCAR AJUDA
Quem estiver pensando em suicídio ou passando por uma crise pode procurar atendimento. O Centro de Valorização da Vida (CVV) oferece apoio emocional gratuito, sigiloso e anônimo pelo telefone 188, 24 horas por dia, todos os dias. Também há atendimento por chat e e-mail pelo site cvv.org.br.
Pelo SUS, é possível buscar atendimento em Unidades Básicas de Saúde (UBS), Centros de Atenção Psicossocial (CAPS), UPAs 24 horas, prontos-socorros e hospitais.
Em situações de risco imediato ou tentativa de suicídio, a orientação é acionar o SAMU pelo 192, serviço gratuito e disponível 24 horas.
Se você percebeu sinais de sofrimento em alguém, não ignore. Escute, permaneça por perto e ajude a pessoa a chegar a um serviço de atendimento.

