
A promessa de emagrecimento rápido tem levado milhares de brasileiros a buscar alternativas cada vez mais perigosas. Entre elas estão as canetas emagrecedoras contrabandeadas, muitas trazidas ilegalmente do Paraguai e comercializadas pelas redes sociais, aplicativos de mensagens e até em clínicas e estabelecimentos sem autorização. O preço mais baixo atrai consumidores, mas especialistas alertam para os riscos.
As canetas pertencem à classe dos medicamentos agonistas do GLP-1, indicados principalmente para o tratamento da obesidade e do diabetes tipo 2, sempre com acompanhamento médico. Produtos de origem clandestina, porém, não passam pelo controle sanitário exigido pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), o que impede garantir sua qualidade, eficácia e segurança.
“Existe um risco invisível: o paciente olha para uma caneta, vê uma embalagem aparentemente legítima e sente uma falsa sensação de segurança. Mas ele não sabe, de fato, o que está dentro dela, como foi transportada, armazenada ou manipulada. Uma dose errada ou um produto adulterado podem trazer consequências reais e graves para a saúde”, explica o médico Matheus D’AngelIs.
O avanço do contrabando levou a Anvisa e a Polícia Federal a intensificarem a fiscalização. Segundo a Anvisa, entre 2018 e 2026 foram registradas quase 3 mil notificações de eventos adversos relacionados aos medicamentos da classe GLP-1, sendo quase metade concentrada em 2025. Há registros de complicações graves e até óbitos.
Grande parte das apreensões envolve produtos provenientes do Paraguai. Dados da Secretaria de Estado de Justiça e Segurança Pública de Mato Grosso do Sul (Sejusp-MS) apontam que, desde 2025, mais de 3 mil caixas de canetas emagrecedoras foram apreendidas em operações contra crimes transfronteiriços.
A Anvisa também esclareceu que testes realizados em algumas amostras identificaram apenas a presença de princípio ativo, sem avaliar aspectos como bioequivalência, esterilidade, contaminantes e absorção pelo organismo. Portanto, não é possível afirmar que esses produtos sejam seguros ou equivalentes aos medicamentos registrados no Brasil.
Outro risco está no transporte e armazenamento. Como as canetas necessitam de refrigeração, qualquer alteração na temperatura pode comprometer sua eficácia. No mercado ilegal, não há garantia de que essas condições sejam respeitadas.
“Porque aparência não é garantia de segurança. O paciente pode estar colocando dentro do próprio corpo algo cuja origem e qualidade desconhece e, se ocorrer uma complicação, pode nem sequer saber quem será responsabilizado”, alerta Matheus.
Dor abdominal intensa, vômitos persistentes, desmaio, falta de ar, reação alérgica, confusão, palpitações e sinais de desidratação são sintomas que exigem atendimento médico imediato. “Diante de um produto clandestino, a equipe médica também pode ter dificuldade para saber exatamente o que foi administrado. Em uma reação grave, essa informação pode ser decisiva para a conduta”, explica.
O médico reforça que o tratamento para perda de peso deve ser individualizado, com avaliação profissional, alimentação equilibrada, atividade física e, quando necessário, medicamentos aprovados pelos órgãos reguladores.
