
A pressão por produtividade, o excesso de estímulos e os impactos da sobrecarga no cotidiano foram discutidos na edição 2026 do Mulheres no Plural, realizada na quarta-feira (23), na Casa São Carlos. Idealizado pela especialista em comportamento humano e mentora Maria Clarisse Amaral, o encontro teve como tema “Burnout — A Exaustão Invisível da Vida Moderna” e reuniu profissionais de diferentes áreas para abordar saúde mental.
“Esse evento é um convite para refletirmos e repensarmos a forma como estamos levando a nossa vida. É sobre recomeçar e ter mais pressa de viver do que de ser produtivo. Apesar de ser voltado principalmente para mulheres, recebemos também homens, e muitos dos convidados são gestores que trabalham com pessoas”, destacou Maria Clarisse.
A programação começou com um momento de relaxamento conduzido por Poliana Lafetá, professora de ioga e eneagrama. Os participantes foram convidados a experimentar técnicas de respiração e relaxamento que podem ser incorporadas à rotina como ferramentas para lidar com momentos de tensão e estresse.
Na sequência, uma roda de conversa reuniu os médicos Bertha Coelho, mastologista; Dr. Daniel Arthur, psicólogo; Ludmila Souto, psiquiatra e psicanalista; e Ana Carolina, psiquiatra. A conversa abordou o burnout sob diferentes perspectivas, desde os sinais de alerta e os impactos na saúde mental até a responsabilidade das empresas e as diferenças entre burnout e depressão.
Ludmila Souto explicou que o burnout está inserido em um contexto marcado pelo excesso de estímulos, informações e cobranças. “Vivemos um momento de excesso de estímulos e informações, em uma sociedade capitalista e consumista que nos mantém constantemente ocupados. Muitas vezes, não conseguimos parar para pensar e, quando paramos, sentimos culpa. O ser humano está tão envolvido em uma rotina exaustiva que descansar passa a parecer errado”, afirmou.
O psicólogo Daniel Arthur chamou atenção para a necessidade de tratar a saúde mental como uma responsabilidade coletiva nas organizações. “A saúde mental precisa ser um projeto coletivo. Quando falamos em saúde do trabalhador, estamos falando tanto da saúde física quanto da saúde mental. Ainda vivemos em uma sociedade muito individualizada e, muitas vezes, na busca pela produtividade, as pessoas deixam de ser reconhecidas como sujeitos e passam a ser vistas apenas como meios para alcançar um resultado. É nesse momento que o ambiente de trabalho pode começar a adoecer”, afirmou.
A psiquiatra Ana Carolina abordou a relação entre burnout e depressão, destacando que, embora alguns sintomas possam ser semelhantes, as condições apresentam diferenças importantes. “O burnout provoca alterações emocionais e cognitivas relacionadas principalmente ao contexto de trabalho, além de sintomas físicos e emocionais. Já a depressão pode atingir de maneira mais ampla outras dimensões da vida, como as relações familiares e a própria existência. Alguns sintomas podem aparecer nas duas condições e, se não for tratado adequadamente, o burnout pode contribuir para o agravamento do quadro emocional”, explicou.
A mastologista Bertha Coelho, por sua vez, falou sobre uma dúvida frequente relacionada à saúde emocional e ao câncer. Segundo ela, não há base para afirmar que sofrimento emocional, estresse crônico ou transtornos psicológicos, isoladamente, provoquem câncer de mama.
“Existe uma crença de que um sofrimento emocional pode levar diretamente ao desenvolvimento de uma neoplasia maligna. Muitas pessoas pensam que, se estão doentes, isso aconteceu porque passaram por uma perda, foram traídas ou viveram alguma situação emocional difícil. O câncer é uma doença multifatorial e não temos base científica para afirmar que pessoas com adoecimento mental ou psicológico tenham, por esse motivo, maior risco de desenvolver neoplasias”, esclareceu.
A médica ressaltou ainda que, no caso do câncer de mama, os principais fatores de risco estão relacionados ao fato de ser mulher e ao envelhecimento, além de outros fatores que podem ser modificados ou acompanhados ao longo da vida. “Estamos diante de um risco que acompanha as mulheres ao longo da vida, e alguns hábitos podem aumentar esse risco. Por isso, informação, prevenção e acompanhamento médico são fundamentais”, completou.
Ao final, Maria Clarisse destacou que o propósito do encontro foi justamente criar um espaço para troca e reflexão. “O evento teve o objetivo de compartilhar ideias, experiências e conhecimento para que possamos buscar uma vida mais equilibrada diante da correria dos dias atuais. O burnout é um tema muito pertinente e precisa ser discutido”, concluiu.
