
Com valores a partir de R$ 452, a primeira caneta brasileira de semaglutida, produzida pela farmacêutica EMS, começou a chegar às farmácias nesta semana. A medicação é a primeira versão nacional do princípio ativo aprovada após a queda da patente que pertencia à farmacêutica dinamarquesa Novo Nordisk, fabricante dos medicamentos Ozempic e Wegovy.
A chegada do produto ao mercado ocorre em um momento em que a obesidade avança no Brasil e se consolida como um dos principais desafios de saúde pública do país. Dados do sistema Vigitel, do Ministério da Saúde, mostram que cerca de um em cada quatro brasileiros adultos vive com obesidade. O índice passou de 11,8% em 2006 para mais de 24% em 2023, praticamente dobrando em menos de duas décadas. Especialistas alertam que o excesso de peso está associado ao aumento do risco de doenças cardiovasculares, diabetes tipo 2, hipertensão arterial, alguns tipos de câncer e problemas osteoarticulares.
Nesse cenário, medicamentos à base de semaglutida ganharam espaço como ferramenta auxiliar no tratamento da obesidade. De acordo com o médico Rafael Barbosa, a substância atua imitando um hormônio produzido naturalmente pelo intestino.
“O GLP-1 atua a nível cerebral reduzindo o apetite, retardando o esvaziamento gástrico e consequentemente aumentando a saciedade”, esclarece.
Além do controle do peso, a medicação também tem indicação para pacientes com diabetes tipo 2. Segundo o especialista, a ampliação do acesso ao tratamento pode beneficiar pessoas que antes não conseguiam arcar com os altos custos das versões importadas.
Para ele, o preço mais acessível será importante para os pacientes com obesidade, aumentando a possibilidade de uso da medicação, que é eficaz no tratamento também da diabetes tipo 2, promovendo, além da perda de peso, o controle glicêmico, a proteção cardiovascular e a diminuição de processos inflamatórios crônicos.
A fisioterapeuta e empreendedora Jara Gabrielle está entre os pacientes que recorreram às canetas emagrecedoras para potencializar o processo de perda de peso. Ela afirma que os resultados iniciais serviram como estímulo para manter hábitos saudáveis.
“Acredito que quando começamos a ver o resultado (e a com a caneta isso se torna mais rápido e fácil) a tendência é se empolgar pra querer dar prosseguimento que é o mais difícil”, avalia.
Apesar dos benefícios, ela destaca que nunca encarou a medicação como uma solução isolada. “Desde o início eu faço acompanhamento médico, nutricional e com educador físico. Faço reeducação alimentar e treino de força com cardio”, reforça.
Para ela, a mudança de comportamento continua sendo determinante para a manutenção dos resultados a longo prazo. “Se não, o peso vai voltar”, diz.
O médico Rafael Barbosa explica que a obesidade deve ser compreendida como uma doença crônica, e não apenas como uma questão estética. “Ela tem potencial para causar vários danos à saúde como resistência periférica à insulina e desenvolvimento de diabetes tipo 2, doenças cardiovasculares, hipertensão, problemas articulares e aumento do risco de diversos tipos de câncer”, alerta.
A percepção é compartilhada por Jara Gabrielle, que defende uma maior conscientização sobre a doença e seus impactos. “Em algum momento teremos que deixá-la e seguir lutando diariamente, com a mente do obeso. É importante, além de aumentar o acesso, fazer um trabalho de conscientização sobre a saúde, porque a obesidade é um problema de saúde”, reforça.
A expectativa do setor farmacêutico é que a entrada da primeira versão nacional aumente a concorrência e amplie o acesso ao tratamento. Após o anúncio da chegada da caneta brasileira, outras farmacêuticas também promoveram reduções de preços para tornar seus produtos mais competitivos no mercado. A tendência é que a disputa por consumidores pressione os valores para baixo nos próximos meses, ampliando as opções disponíveis para pacientes e médicos.
