Emergência psiquiátrica

Atendimentos psiquiátricos do Samu crescem 49% no Norte de Minas

Vanessa Araújo
vanraraujo@gmail.com
Publicado em 12/06/2026 às 19:00.
Os dados de 2026 indicam que a procura pelos serviços permanece em patamar elevado (Ascom/Samu)
Os dados de 2026 indicam que a procura pelos serviços permanece em patamar elevado (Ascom/Samu)

Os atendimentos psiquiátricos realizados pelo Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu) registraram crescimento significativo nos últimos anos no Norte de Minas Gerais. Dados do Consórcio Intermunicipal de Saúde da Rede de Urgência do Norte de Minas (Cisrun) mostram que o número de ocorrências passou de 2.460 em 2019 para 3.665 em 2025 na Região Ampliada de Saúde Norte, um aumento de aproximadamente 49% no período. Somente entre janeiro e abril de 2026 já foram contabilizados 1.215 atendimentos.

Em Montes Claros, principal município da região, a tendência também é de crescimento. Os atendimentos psiquiátricos realizados pelo Samu passaram de 926 em 2019 para 1.237 em 2025, representando aumento de cerca de 34%. Nos quatro primeiros meses de 2026, já foram registrados 403 atendimentos no município.

Os números revelam uma demanda crescente por assistência em situações relacionadas a transtornos mentais, crises emocionais, surtos psicóticos, tentativas de suicídio e outras ocorrências que exigem atendimento de urgência. O levantamento também aponta aumento da média mensal de atendimentos na região, que passou de 205 ocorrências em 2019 para 305 em 2025.

O maior volume de atendimentos da série histórica foi registrado em 2025, tanto na região quanto em Montes Claros. No Norte de Minas, foram 3.665 ocorrências, enquanto no município o total chegou a 1.237 atendimentos. Os dados de 2026 indicam que a procura pelos serviços permanece em patamar elevado. 
 
O QUE DIZEM OS ESPECIALISTAS
Para o psiquiatra Marcos Vinícius Nunes Martins, o aumento dos atendimentos psiquiátricos não está relacionado apenas ao crescimento dos transtornos mentais, mas também a uma mudança na forma como a sociedade lida com o tema. De acordo com ele, as pessoas estão mais conscientes sobre a importância da saúde mental e mais dispostas a procurar ajuda diante de situações de sofrimento psicológico. “Hoje temos uma população mais consciente sobre a saúde mental. Fala-se mais sobre o próprio adoecimento. Entende-se melhor os riscos e compreendemos, como sociedade, que o sofrimento mental oferece risco à vida e ao bem-estar”, afirma.

Para o médico, o aumento dos acionamentos do Samu também revela desafios na estrutura de atendimento da Rede de Atenção Psicossocial (RAPS). Embora tenha avançado nos últimos anos, a rede ainda enfrenta limitações relacionadas à demanda crescente. “O aumento reflete, em parte, uma maior resolutividade e confiança da população no serviço de urgência, mas também acende um alerta sobre o gargalo nos atendimentos eletivos e preventivos”, destaca.

Na avaliação do especialista, fortalecer a RAPS é fundamental para reduzir a recorrência das crises e oferecer um acompanhamento mais eficiente aos pacientes. Ele explica que a rede não se resume aos momentos de urgência, mas envolve prevenção, tratamento continuado e reinserção social. “O fortalecimento dos CAPS em Montes Claros garante que o paciente que obteve alta de uma crise não fique desamparado. Sem o acompanhamento intensivo no pós-crise, o indivíduo fatalmente recairá, gerando um novo acionamento do Samu ou uma nova internação”, explica.

O psiquiatra também chama atenção para a necessidade de ampliar a participação da Atenção Primária à Saúde e qualificar os profissionais dos serviços de urgência para lidar com o sofrimento mental. “É urgente a atuação ativa e fortalecida da Atenção Primária em Saúde e dos serviços de urgência e emergência treinados para lidarem, de forma humanizada, com o sujeito em sofrimento mental”, ressalta.

Nos consultórios, Marcos Vinícius observa uma tendência semelhante à registrada em outras partes do mundo. Os casos de ansiedade e transtornos de humor continuam entre as principais demandas, acompanhados pelo aumento da procura por avaliações relacionadas ao TDAH e ao Transtorno do Espectro Autista (TEA), além dos quadros de burnout. “O perfil da demanda ambulatorial tem mostrado algo que corresponde ao padrão mundial: elevação dos quadros ansiosos e dos transtornos de humor”, afirma.

Apesar de considerar positivo o fato de mais pessoas procurarem ajuda precocemente, o especialista observa uma busca crescente por soluções médicas para sofrimentos inerentes à vida cotidiana. “As pessoas estão mais abertas a buscar ajuda psiquiátrica precocemente, o que é positivo. Porém, chegam ao consultório com uma tolerância menor ao sofrimento psíquico, muitas vezes buscando uma medicalização do luto, tristeza, frustração ou do estresse cotidiano”, pontua.

Quando o assunto são as crises psiquiátricas, o médico reforça que não existe uma causa única. Entre os fatores mais comuns estão o abandono do tratamento, a fragilidade da rede de apoio, situações de vulnerabilidade social e o uso de substâncias psicoativas. “No dia a dia da assistência, os surtos e crises agudas raramente acontecem por um único motivo”, resume.

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