‘É um absurdo’

Atendimento restrito em Montes Claros desrespeita normas do SUS

Márcia Vieira
marciavieirayellow@yahoo.com.br
Publicado em 03/04/2025 às 19:00.
Pacientes aguardam na fila desde as 7h48 devido à exigência da UBS; único atendente enfrenta alta demanda (Márcia Vieira)
Pacientes aguardam na fila desde as 7h48 devido à exigência da UBS; único atendente enfrenta alta demanda (Márcia Vieira)

Joana Pereira há três dias consecutivos vem buscando a unidade de saúde para fazer a renovação da receita de fralda geriátrica para o seu esposo, que está com 93 anos e acamado. No primeiro dia, ela teve o atendimento recusado porque chegou depois das 7h. Foi informada de que deveria voltar no dia seguinte e voltou, no horário estipulado, mas, de novo, não conseguiu renovar a receita. “Antes a gente pegava no Mercado Sul, agora mudou para a farmácia e disseram que a receita não serve. Tem que ser outra. Deixei para a médica, passaram para a enfermeira, mas me falaram que ela está ocupada e eu deveria voltar mais tarde. Preciso vir ao posto três vezes para pegar uma prescrição?”, questiona. Embora tenha direito à fralda geriátrica, Joana arcou com a compra da fralda e saiu do posto frustrada. “Estou perdendo serviço”, disse.

Joana é apenas uma dos inúmeros usuários que reclamam da dinâmica de atendimento nas Unidades Básicas de Saúde de Monte Claros. A UBS funciona como porta de entrada para o Sistema Único de Saúde (SUS), e, segundo o Ministério da Saúde, o horário de atendimento não deve ser limitado e não pode prejudicar a população. A função da UBS é facilitar o acesso ao serviço, principalmente para quem trabalha fora, e assim, desafogar as Unidades de Pronto Atendimento (UPA) e emergências hospitalares.

Mas em Montes Claros, os relatos mostram que o “modus operandi” implica negativamente na saúde da população.

No posto de saúde do bairro Major Prates, às 7h48, uma única funcionária atendia a fila. A vendedora Sueli Pimenta reclamou de ser obrigada a chegar ao local às 7h da manhã e entrar na fila, mas apenas uma atendente fica disponível nesse horário e sobrecarregada com o serviço. Toda vez que vai ao posto, ela perde o dia de serviço. “O posto de saúde é para atender às pessoas. É um absurdo reduzir esse horário de 7h às 8h. Nos forçam a chegar nesse horário e ter que faltar ao serviço. Essa logística está invertida. Facilita o trabalho deles e prejudica a população com o seu direito negligenciado. Nós é que temos que nos adaptar à boa vontade deles. A população sequer foi consultada a esse respeito”, disse.

M. S. chegou acompanhando o marido que deveria passar por uma consulta. “Chegamos às 7h20. Depois que pegamos a fila, nos mandaram voltar outro dia. Meu marido trabalha. É difícil para ele ter que ir e voltar. Tenho 65 anos e muita luta. Eu não tenho tempo para ficar só mexendo com médico, não. O atendimento aqui é desse jeito, é um desrespeito. Marca o horário, a gente chega e manda voltar depois, falando que é porque está muito cheio e vai demorar. Mas cadê essa superlotação?!”, disse.

A reportagem permaneceu no local durante toda a manhã e confirmou que o cenário das 9h já não era o mesmo das 7h e não havia superlotação, nem justificativa para o não atendimento do paciente. “É um desgaste. É preciso brigar para ser atendido, sem contar a demora nos exames. Meu marido está aguardando há 4 meses um ultrassom abdominal. E a receita do meu filho, que eu trouxe para transcrever, não fizeram. Mandaram voltar à tarde. Pensam que a gente não tem mais nada a fazer a não ser passar o dia ou a semana vindo ao posto”, declarou M.S. 

As normas de funcionamento para a UBS dispõem que elas devem estar abertas, sem intervalo de almoço, de segunda a sexta-feira, e devem priorizar uma parte da agenda para atendimentos espontâneos, além de ter o prontuário eletrônico implantado e atualizado. As diretrizes da atenção básica indicam que a organização deve priorizar o acesso facilitado e impedir deslocamentos desnecessários.

Questionada, a secretaria de comunicação da prefeitura admite que o acolhimento com escuta qualificada por médicos e enfermeiros é realizado no início da manhã (de 7h às 8h). Segundo a prefeitura a iniciativa é para “organizar melhor a demanda do dia, conforme a classificação de risco estabelecida pelo Ministério da Saúde para Unidades de Saúde da Família” e que, “após esse horário, os usuários continuam sendo acolhidos pelo técnico de enfermagem, e suas queixas são avaliadas conforme a gravidade e a prioridade clínica para definição do atendimento programado ou imediato”.

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