Jogo perigoso

Apostas online acendem alerta para riscos à saúde mental e ao endividamento

Christine Antonini
chrys_antonini@hotmail.com
Publicado em 06/08/2026 às 19:00.
As plataformas, que estão acessíveis 24 horas por dia, empregam ferramentas como notificações constantes, bônus de boas-vindas, apostas em tempo real e sistemas de recompensa que motivam o usuário a se manter conectado e a prosseguir com suas apostas (Joédson Alves/ Agência Brasil)
As plataformas, que estão acessíveis 24 horas por dia, empregam ferramentas como notificações constantes, bônus de boas-vindas, apostas em tempo real e sistemas de recompensa que motivam o usuário a se manter conectado e a prosseguir com suas apostas (Joédson Alves/ Agência Brasil)

Com a retomada do Campeonato Brasileiro e a realização de grandes eventos esportivos, período em que cresce o interesse pelas apostas online, o Ministério da Saúde lançou a Campanha Nacional de Prevenção aos Danos das Apostas Online. A iniciativa busca conscientizar a população sobre os riscos do uso excessivo das plataformas de apostas e divulgar os serviços de saúde mental, disponíveis no Sistema Único de Saúde (SUS), para pessoas que enfrentam problemas relacionados ao jogo.

A campanha será veiculada em emissoras de televisão, rádio e redes sociais e reforça que o acesso cada vez mais facilitado às chamadas “bets” tem contribuído para o aumento de casos de dependência, comprometendo a saúde emocional, a estabilidade financeira e as relações familiares.

Disponíveis 24 horas por dia, as plataformas utilizam recursos como notificações constantes, bônus de boas-vindas, apostas em tempo real e sistemas de recompensa que incentivam o usuário a permanecer conectado e continuar apostando. Para especialistas, esses mecanismos podem favorecer o desenvolvimento de um comportamento compulsivo.

Para o psicólogo Eduardo Borges Freitas, a transição do jogo recreativo para o patológico costuma ser gradual. Primeiro, é observada a mudança em pensamentos, emoções e comportamentos, como perseguição das perdas, tolerância comportamental, preocupação constante, aumento do sigilo e mentiras.

“A incapacidade de parar o jogo passa a ser utilizada como estratégia de regulação emocional desadaptativa (para fugir do estresse, ansiedade, tristeza ou tédio). O apelo dos jogos de azar baseia-se em mecanismos psicológicos e neurobiológicos profundamente enraizados: o cérebro humano libera níveis altíssimos de dopamina quando a recompensa é imprevisível. Se você ganhasse todas as vezes, o jogo perderia a graça. A incerteza do ‘quase ganhei’ gera uma descarga dopaminérgica tão intensa quanto a própria vitória. Para muitos, o momento do jogo funciona como uma dissociação ou um ‘anestésico’ temporário para problemas cotidianos, ansiedade ou sentimentos de inadequação”, explica o especialista. 

Segundo o Ministério da Saúde, quando a prática deixa de ser uma forma de entretenimento e consome tempo, dinheiro e interfere na rotina, pode haver um quadro de uso problemático. Entre os principais sinais de alerta estão apostar valores maiores do que o planejado, dificuldade para interromper as apostas, preocupação constante com os jogos, alterações no sono, no humor e prejuízos nas relações pessoais e profissionais.

De acordo com Eduardo Freitas, o transtorno do jogo causa um efeito dominó destrutivo. Atingindo o financeiro, acúmulo de dívidas expressivas, uso de limite de crédito, empréstimos com juros altos (ou com agiotas), venda de bens e colapso do orçamento doméstico. Familiar e interpessoal: quebra grave de confiança causada pelas mentiras, conflitos constantes, isolamento social e, frequentemente, separações conjugais. Pessoal e Emocional: queda no desempenho profissional ou escolar, sintomas graves de ansiedade, insônia, depressão, sentimentos intensos de culpa e vergonha.

“A vergonha e a culpa associadas ao vício em jogos de azar são avassaladoras. É infelizmente frequente que o indivíduo se sinta em um ‘beco sem saída’ financeiro e moral, encarando o suicídio como a única forma de parar de sofrer ou de não ser um ‘fardo’ para a família. O profissional psicólogo atua no acolhimento empático e sem julgamentos, mapeamento de gatilhos, reestruturação cognitiva, desenvolvimento de estratégias de enfrentamento (controle de estímulo e técnicas de tolerância ao mal-estar), prevenção de recaídas e reconstrução da vida. Ajudamos o paciente a planejar a reparação gradual dos danos e a encontrar fontes saudáveis de prazer e sentido para a vida”, pondera o psicólogo.

Segundo o Ministério da Saúde, o Transtorno do Jogo é reconhecido pela Classificação Internacional de Doenças (CID) e pelo Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM) como um transtorno de comportamento aditivo. Estimativas da Organização Mundial da Saúde (OMS) apontam que cerca de 1,2% da população adulta mundial apresenta esse tipo de transtorno.
 
ALÉM DAS PERDAS FINANCEIRAS
A dependência em apostas pode transformar vidas em pouco tempo. É o caso da garçonete, que preferiu não se identificar, de 29 anos de idade, uma pessoa que aceitou compartilhar sua história, sob identidade preservada.

O que começou como uma tentativa de ganhar dinheiro rapidamente terminou em uma sequência de perdas financeiras. Na tentativa de recuperar o que havia perdido, ela passou a fazer novas apostas, solicitou dinheiro emprestado a familiares, amigos e até mesmo a agiotas. As dívidas se acumularam, o pouco que tinha foi perdido e as cobranças passaram a colocar em risco não apenas sua segurança, mas também a de sua família.

“Tive que sair de Montes Claros fugida, não me orgulho disso, porque eu estava devendo a muita gente, incluindo meu patrão. Não tive coragem de falar com ninguém o que realmente me aconteceu, acredito que minhas dívidas chegam na casa dos R$ 20 mil. Hoje, enfrento um quadro grave de depressão. Além das dificuldades financeiras, perdi amizades construídas ao longo de anos, após recorrer repetidamente a empréstimos que não conseguiu quitar. Ver minha família sendo ameaçada por minha causa me destruiu ainda mais”, conta a garçonete.

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