
Apesar dos avanços registrados nas últimas décadas, o aleitamento materno exclusivo ainda está abaixo do ideal no Brasil. Dados do Estudo Nacional de Alimentação e Nutrição Infantil (ENANI) mostram que 45,8% das crianças brasileiras menores de seis meses recebem apenas leite materno, índice inferior à meta de 70% até 2030, adotada pelo país com base nas recomendações da Organização Mundial da Saúde (OMS). Neste Agosto Dourado, especialistas alertam que, além de incentivar a amamentação, é preciso discutir as dificuldades enfrentadas pelas mães e ampliar o acesso à informação e ao apoio profissional.
Embora seja um processo natural, a amamentação nem sempre acontece de forma simples. Segundo a consultora de amamentação Eliane Abreu, além da falta de orientação adequada, muitas mulheres enfrentam desafios importantes. “Embora a amamentação seja um processo natural, trata-se de uma prática frequentemente desafiadora. Além da carência de orientações adequadas, as lactantes enfrentam obstáculos como fissuras mamárias, engurgitamento e as complexidades inerentes ao período puerperal”, explica.
Neste mês, quando a campanha Agosto Dourado reforça a importância do aleitamento materno, Eliane chama a atenção para um aspecto que, segundo ela, ainda recebe pouca visibilidade: os obstáculos enfrentados pelas mães no dia a dia da amamentação. “As dificuldades enfrentadas pelas mães durante esse processo ainda são pouco discutidas. Existe uma lacuna significativa na qualidade das orientações oferecidas às gestantes e puérperas”, lamenta.
Ela avalia, ainda, que o suporte à amamentação ainda precisa avançar em diferentes frentes. “A sociedade, os profissionais de saúde e o poder público precisam avançar substancialmente no suporte e no aconselhamento voltados ao aleitamento materno”, afirma. A consultora também destaca que muitos dos receios relacionados ao aleitamento têm origem em crenças transmitidas entre gerações. Entre os mitos mais comuns estão a ideia de que a mãe produz pouco leite, de que o leite materno é “fraco” ou de que não é suficiente para alimentar o bebê.
Maurisílvia Holanda, 43 anos, empresária e mãe de dois filhos, enfrentou dificuldades para amamentar nas duas gestações. Apesar dos desafios, ela persistiu com o apoio da família e do acompanhamento de uma consultora de amamentação, conseguindo manter o aleitamento materno por três anos com cada filho. Na primeira gestação, a dificuldade começou ainda na maternidade. Segundo ela, o leite demorou a descer e o enrijecimento da aréola dificultou a pega correta da bebê, causando ferimentos graves nos mamilos. “Meu leite demorou a descer, minha auréola empedrava e não dobrava para caber na boquinha dela, o que acabou ferindo meus mamilos. Quase perdi um deles”, conta.
Ela atribui a superação desse momento ao acompanhamento profissional recebido desde a gravidez. “O que me salvou foi a ajuda da consultora que, com muito carinho, ia na minha casa, orientava e aplicava o laser para aliviar as dores”, revela a empresária.
Na segunda gestação, a preparação começou antes mesmo do nascimento do bebê. Como já conhecia as dificuldades enfrentadas anteriormente, Maurisílvia adotou medidas preventivas durante toda a gravidez. Ainda assim, voltou a sofrer com ferimentos nos mamilos, já que o filho tinha uma sucção mais intensa. “Ele mamava muito mais forte que a minha menina. Dessa vez, novamente com a ajuda da consultora, conseguimos aliviar as dores e as feridas mais rapidamente”, relata.
A dor física, associada ao cansaço e à preocupação em alimentar o bebê, fez com que ela pensasse em interromper a amamentação. “Pensei em desistir, sim. Várias vezes. Juntava a dor física, o cansaço das noites sem dormir e a criança com fome… não tinha como não pensar em desistir”, diz. Mesmo diante das dificuldades, o desejo de oferecer o leite materno aos filhos falou mais alto. O apoio do marido e o acompanhamento da consultora foram determinantes para ela continuar. “Eu sabia da importância do meu leite. Com a ajuda e o carinho da consultora, assim como o apoio do meu esposo, persisti e consegui amamentá-los”, relembra.
Segundo a consultora Eliane Abreu, a informação correta é o principal caminho para desconstruir essas crenças. “É fundamental oferecer uma orientação clara e precisa, garantindo que a mãe e sua família estejam devidamente informadas sobre o manejo da amamentação. É necessário reforçar que amamentar é possível e não deve ser um processo doloroso, reiterando que o leite materno é o alimento ideal e possui todos os nutrientes necessários para o pleno desenvolvimento do bebê”, alerta.
