O tempo cada vez mais longo que passamos diante das telas – TVs, smartphones e monitores de computador – vem impactando não só nas nossas relações pessoais, mas também na saúde dos nossos olhos. Pesquisas e a própria percepção de especialistas em consultório mostram que o hábito de focar imagens de perto por horas a fio está ocasionando o fenômeno “miopização”, ou seja, levando à dificuldade para enxergar de longe. 

A explicação é simples. Segundo a oftalmologista Mariana Amaranto, fellowship de retina e vítreo na Fundação Hilton Rocha, em Belo Horizonte, é como se o olho se acostumasse a focalizar imagens de perto e, aos poucos, perdesse a capacidade de capturá-las também a distância.

“Fizemos um estudo de prevalência no hospital, no qual coletamos dados epidemiológicos da doença. Não comparamos as informações ao uso de telas, mas sabemos da realidade atual, em que crianças têm acesso cada vez mais cedo e passam cada vez mais tempo diante delas. Uma das teorias em que acreditamos para o aumento dos casos de miopia é o excesso de exposição”. 
 
OLHE PARA LONGE 
A especialista explica que o problema, na maioria das vezes, está relacionado ao tamanho do olho. “Olhos anatomicamente maiores formam a imagem antes da retina”, detalha. Para corrigir o erro refrativo, podem ser usados óculos de grau ou lentes de contato. Outra possibilidade é se submeter a cirurgia específica. 

No caso da “falsa miopia”, ou seja, do problema ocasionado pela exposição excessiva da visão às telas, a recomendação médica é dosar o contato com imagens de perto e descansar os olhos, fixando objetos a distância pelo menos a cada 1h30. 

“A musculatura fica contraída e o olho se acostuma a enxergar de perto. É preciso, então, parar, olhar para o que está longe e, mais que isso, piscar para lubrificá-los”, ensina o oftalmologista Luiz Carlos Portes, membro titular e ex-presidente da Sociedade Brasileira de Oftalmologia (SBO).

A fixação excessiva dos olhos nas telas também pode ocasionar outros problemas, como a síndrome visual do computador, que leva à sensação de cansaço e a dores de cabeça e musculares. Para melhorar os sintomas, a recomendação é fazer intervalos frequentes na atividade virtual, manter uma distância mínima de 50 centímetros da tela e evitar a luz direta nos olhos.

“O para-brisa do carro não passa a paleta para limpar o vidro? O mesmo vale para os olhos, ao piscar, espalhando lágrima para lubrificá-los. Deixando-os abertos o tempo todo, provocamos um ressecamento excessivo”, acrescenta o médico.


Prevenção deve ser anual
Embora não seja um hábito no Brasil – pesquisa recente mostrou que um terço dos brasileiros nunca foi ao oftalmologista –, visitar um especialista em olhos pelo menos uma vez ao ano é fundamental para prevenir e detectar doenças que, quando precocemente identificadas, podem ser tratadas, melhorando a qualidade de vida do paciente. 

O cuidado com os olhos deve começar desde cedo, afirma o oftalmologista Luiz Molinari, da Unimed-BH. Obrigatório na rede pública de saúde, simples, rápido e indolor, o teste do olhinho, que deve ser realizado em todos os recém-nascidos, ainda na maternidade, detecta diferentes problemas, de catarata a câncer. 

Logo no primeiro ano de vida, o bebê também deve ser submetido a consulta com especialista. Nesta faixa etária, um tipo de tumor maligno infantil é identificável, possibilitando acompanhamento e tratamento adequados.

A partir dos 10 anos, quando são comuns surgirem os erros de refração, também entra no radar o ceratocone, responsável pela maioria das indicações de transplante de córnea no Brasil. A doença modifica a estrutura da córnea, levando à perda progressiva da visão. 

“Nos adultos, de modo geral, surgem patologias como glaucoma, que exige acompanhamento, além de presbiopia, a popular vista cansada. Depois dos 60, podem aparecer retinopatia diabética em pacientes com a doença, o próprio glaucoma, catarata e degeneração macular por idade”.

UMA VEZ AO ANO 
A oftalmologista Mariana Fontenelle ressalta que as consultas médicas devem ser realizadas pelo menos uma vez ao ano ou com menor frequência.

Segundo ela, além dos erros refrativos – miopia, hipermetropia e astigmatismo –, os olhos também podem ser impactados por outras doenças como hipertensão, diabetes, infecções e até por intoxicação medicamentosa.

“O olho seco, por exemplo, pode ter inúmeras causas: uso excessivo de computadores, doenças sistê-micas e influência do ambiente, da umidade do ar e da temperatura. Os colírios lubrificantes são ótimas opções de tratamento, mas antes de tratar a consequência é necessária uma avaliação para identificar a causa”.