É difícil imaginar algo que a humanidade queira e busque mais neste momento do que a vacina para a Covid-19, doença causada pelo novo coronavírus.

Há notícias de que uma ou mais dezenas de projetos em busca dessa vacina são desenvolvidos ao redor do mundo, assolado desde dezembro por uma pandemia de Covid-19 – da qual o Brasil é hoje o epicentro –, que já matou centenas de milhares de pessoas, em diferentes países. 

A corrida por um medicamento que nos imunize contra o novo coronavírus mobiliza pesquisadores em várias nações e valores astronômicos. China, Estados Unidos, Reino Unido, Alemanha e Brasil investem nesses estudos.

A China, onde a Covid-19 matou mais de 4 mil pessoas, está prestes a iniciar a segunda fase de desenvolvimento de uma vacina contra a doença, aponta o professor associado da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), infectologista Unaí Tupinambás. Ele acredita que em 18 meses é possível que haja uma vacina disponível.
 
BRASIL
Integrante da equipe brasileira que trabalha em um dos protótipos de vacina para o mesmo fim, o virologista da UFMG e do Centro de Tecnologia em Vacinas da UFMG Flávio da Fonseca acredita, no entanto, que o surgimento de um medicamento desses na China não significará que o Brasil terá acesso a ele com rapidez. Daí a importância, frisa, da vacina que vem sendo desenvolvida em parceria entre a UFMG e a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz). 

Fonseca pondera que, caso a China, por exemplo, seja pioneira na obtenção de uma vacina eficaz, procurará, primeiro, imunizar seus 1,4 bilhão de habitantes, e os dos países seus parceiros. O virologista não acredita que seja possível a produção de uma vacina em escala capaz de imunizar a população mundial, de mais de 7 bilhões de pessoas, de uma só vez. “Vamos enfrentar fila de anos para receber a vacina. É importante termos uma para oferecer aqui no país”.

A vacina brasileira, revela, deve ficar pronta até 2022. Mas, enquanto os Estados Unidos investem US$ 40 milhões no incentivo à vacina analisada no laboratório Moderna, o apoio financeiro ao medicamento estudado aqui não deve passar de R$ 4 milhões.

Ainda que parcos, os recursos para o empenho brasileiro rumo à vacina vêm, aponta Fonseca, da mobilização de órgãos de fomento para lidar com a emergência da Covid-19. A Fundação de Amparo à Pesquisa de Minas Gerais (Fapemig) inseriu verbas no início do projeto, há dois meses. A Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) também, assim como o Ministério da Educação e o Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações (MCTic), que começa a liberar recursos.

SAIBA MAIS
O virologista Flávio da Fonseca destaca a participação do cientista Alexandre Machado, da Fiocruz, expert em vacina para a gripe, em sua equipe de pesquisa da vacina contra a Covid-19. E a tecnologia que Machado detém vai gerar uma vacina contra a gripe tradicional, na qual, por engenharia genética, foi inserido um gene do novo coronavírus, que produz uma proteína do coronavírus. Assim, a vacina brasileira será quimérica, bivalente, imunizando simultaneamente contra gripe e Covid-19.

“Temos alguns indicativos que melhoram as nossas chances, já que nossa metodologia foi testada para outras doenças, embora não tenha chegado ao mercado. Fizemos testes científicos para outras doenças com sucesso científico”, pondera Fonseca.

Ele considera que já é preciso construir fábricas, se preparar para ter condição de produzir doses que atinjam a demanda necessária, de 220 milhões de brasileiros, quando a vacina estiver pronta.

“Hoje, não há no mundo nenhuma doença que demande uma quantidade de doses tão grande, por isso, não podemos esperar, temos que tornar nossas unidades fabris em funcionais, já ir pensando em ativar, entre outras, a fábrica de vacinas da Funed (Fundação Ezequiel Dias, em Belo Horizonte). Nossas fábricas dão conta de produzir, estamos falando de 220 milhões de doses, porque todo mundo vai precisar dessa vacina”, alerta ele.

O infectologista Unaí Tupinambás considera o subfinanciamento do SUS, nos últimos quatro anos, como um dos fatores que vêm dificultando o acesso às vacinas no país. Ele aponta que a emenda constitucional 95 retirou bilhões de reais do SUS, desmanchando equipes das Unidades Básicas onde eram feitas as vacinas. Junto a isso, lamenta, os negacionistas entraram com força, notadamente na França e Alemanha, onde fazem campanha insana contra a vacina. “Estamos vivendo tempos bem difíceis”.