Uma ferramenta digital pode ser a nova aliada do fumante para abandonar o vício. Pesquisa da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), na Zona da Mata, desenvolveu um sistema capaz de estimular a pessoa a buscar ajuda. No Estado, 10,8% dos maiores de 18 anos consomem cigarro ou nicotina em outras formas. O índice supera a média nacional, de 9,3%.

De baixo custo e com potencial para ser usado na rede pública, o software interativo ganhou o nome de “Pare de Fumar Conosco”. A partir de um perfil do tabagista, traçado pelo mecanismo, imagens e vídeos são apresentados sobre os riscos da dependência e formas de tratamento. 

“Não é a cura. Mas é muito eficiente para induzir o paciente a frequentar grupos de apoio”, diz o pesquisador do Núcleo Interdisciplinar de Estudos e Pesquisas em Nefrologia (Niepen), da UFJF, Fernando Colugnati. Responsável pelo projeto, ele diz que a expectativa é a de que o fumante marque o “Dia D” para largar o tabaco, sendo direcionado a uma unidade de saúde.
 
ESTUDO CLÍNICO
A eficácia foi comprovada por meio de estudo clínico com 143 pacientes de doenças crônicas, como hipertensão e diabetes, que eram fumantes e frequentavam um centro de saúde. 

Eles foram divididos em dois grupos. “Membros que tiveram acesso ao software foram mais receptivos a buscar ajuda no SUS (Sistema Único de Saúde) do que aqueles abordados pelos profissionais da unidade”, frisa o docente. 

Apesar do resultado positivo, detalhes não foram revelados. O sigilo se deve à publicação da pesquisa em revista científica, que ainda irá ocorrer. O próximo passo é transformar a ferramenta em um app com novos conteúdos.

O projeto foi financiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Minas Gerais (Fapemig) e conta com a parceria da Kansas University Medical Center, dos Estados Unidos. Além do Brasil, o sistema também é desenvolvido no país norte-americano e no México.

PALAVRA DO ESPECIALISTA
O tabagismo é uma dependência como qualquer outra. A nicotina ativa zonas de prazer no cérebro e estimula a produção de dopamina (hormônio do prazer). 

Por isso, é viciante. Ela desestabiliza o sistema e provoca a necessidade constante de liberar o hormônio. Não existe uma quantidade mínima de nicotina a ser consumida para ser considerado fumante. 

O que existe são aqueles considerados ativos, que consomem cigarro industrializado ou de palha e dispositivos aquecedores de tabaco e vaporizadores, ou passivos. 

No entanto, todos têm o risco de adquirir cerca de 150 tipos de doenças, principalmente as cardíacas, respiratórias e cânceres.
 
Frederico Garcia 
Professor do Departamento de Saúde Mental da Faculdade de Medicina da UFMG e coordenador do Ambulatório de Tabagismo do Hospital das Clínicas

SAIBA MAIS
De janeiro a outubro, 5.159 pessoas buscaram ajuda para abandonar o vício em BH. O tratamento é oferecido nos 152 postos de saúde. Conforme a referência técnica do Programa de Controle do Tabagismo, Vanessa Detomi, durante seis meses, os dependentes têm contato com uma equipe multidisciplinar. “É realizada uma abordagem física, comportamental e psicológica”, explica. Cerca de 95% dos pacientes fazem tratamento com o uso de medicamentos. No entanto, segundo a profissional, o remédio é apenas um dos pilares. “Prevenir as recaídas, criar formas para lidar com a abstinência e aprender a viver sem o cigarro também é essencial”.