Testes rápidos para Covid-19 feitos em farmácias de Minas dobraram nos últimos três meses. Dados da associação nacional que representa o setor, a Abrafarma, apontam que, em 7 de agosto, 70.686 exames foram realizados. Já em 4 de novembro, 148.635. 

A procura é maior até mesmo que no pico da doença no Estado, em julho. Até o dia 28 daquele mês, foram 59.586. Representantes de drogarias atribuem o aumento à flexibilização da quarentena e a volta ao trabalho, ao índice de infecção, que tem subido, e até mesmo aos planos para viajar no fim de ano. 

O filho adolescente do vendedor Carlos Moisés de Moura, de 44 anos, pediu para fazer o exame e visitar os avós, que têm mais de 70, no feriado de 12 de outubro. “Ele ficou gripado e com medo de estar contaminado e levar a doença para os avós. Levamos à farmácia e deu negativo”, contou o pai do menino de 13 anos. Carlos Moisés também fez o teste para visitar os pais, porém, em uma clínica. “É importante ter esse cuidado”.

Gerente de Serviços Farmacêuticos da Drogaria Araujo, Fabiano Queiroz diz que, na rede, a procura pelos exames subiu 20% nos últimos 15 dias se comparado à primeira quinzena de outubro. 

“Estamos atribuindo a duas situações. Ao período de viagens de fim de ano e últimos feriados, a pessoa tem usado para se precaver, apesar de não ser uma segurança 100%. As eleições também geram movimentação. O aumento do índice de infecção também é uma possibilidade”. 

Percepção também do farmacêutico Fabiano Paulo Silva, da Droga Clara. “As pessoas estão saindo mais nas ruas e houve aumento dos casos. Muitas falam que estão voltando ao trabalho ou indo visitar os pais”.

Segundo Fabiano Queiroz, os próprios médicos têm encaminhado pacientes para a realização do exame. Hoje, são dois os testes rápidos oferecidos: o que coleta uma gota de sangue na ponta do dedo (detecta anticorpos) e outro que é feito com um cotonete (mostra se a pessoa está infectada).

“(A indicação) Depende do histórico do paciente, se tem ou não sintoma. Sobre a segurança do paciente, a acurácia dos testes melhorou muito (desde o início da pandemia)”. 

CAUTELA 
Para infectologistas, porém, lançar mão desse recurso requer cautela. “Teste rápido não tem a sensibilidade e especificidade do RT-PCR, dá muito resultado falso-negativo e falso-positivo. Por isso não temos muita validação desses exames”, pondera Ana Helena Figueiredo, especialista do Grupo Iron.

Presidente da Sociedade Mineira de Infectologia (SMI), Estevão Urbano completa que, “desconectado dos sintomas clínicos e avaliação médica, o teste rápido é pouco interpretável”. 

“Deve ser feito com indicação médica para cumprir objetivos específicos: geralmente, quando ele (médico) suspeita da doença pelos sintomas, o paciente faz o PCR e, se feito em época errada e com resultado negativo, pede o teste rápido para tentar ajudar mas interpretações”, complementa Estevão, que também atua no Hospital Madre Teresa.

SAIBA MAIS
Há quem, inclusive, teve Covid-19 no início da pandemia, em março, e, após contato recente com um caso positivo, decidiu fazer o teste rápido com receio de uma reinfecção. Foi o caso da jornalista Camilla Fiorini, de 25 anos.

No fim de outubro, um amigo com quem teve bastante contato testou positivo para a doença. “Ele fez o exame do nada e descobriu que estava infectado, mas assintomático”, contou a jovem. 

Com medo, Camilla foi até uma farmácia e fez o teste, que deu não reagente. “Falaram que eu não tinha Covid ou, até então, não tinha anticorpo. Agora nem sei se eu tive mesmo, se o teste deu falso-negativo”, disse a jornalista.

Sem avaliação médica, o resultado pode ser interpretado de várias formas, ressalta o infectologista Estevão Urbano. “Se der positivo, pode não significar nada ou que a pessoa teve e está curada ou, ainda, que está doente, mas assintomática. Já negativo, pode significar que ela não teve nenhum contato com a Covid, mas também pode ter feito numa fase que não deu tempo de positivar. Tanto um quanto ou outro têm múltiplas interpretações”.