Tomar remédio sem orientação médica deixou mais de 2 mil mineiros intoxicados nos últimos cinco anos. Só em 2019, quase 200 pessoas deram entrada em unidades de saúde após passar mal por se automedicar. Reprovado por especialistas, o consumo por conta própria é favorecido pelas facilidades de compra dos fármacos. O abuso pode provocar desde uma simples dor de cabeça à morte da pessoa. 

Atualmente, além de não procurar um médico para receber o tratamento adequado, muitos lançam mão de práticas ainda mais criticadas pelos profissionais da área de saúde. Alheios aos riscos, recorrem cada vez mais à internet.

Um estudo do Instituto de Ciência, Tecnologia e Qualidade (ICTQ), de pesquisa e pós-graduação para o mercado farmacêutico, comprova o cenário. O último levantamento, de 2018, aponta que 44% dos mineiros se autodiagnosticaram a partir de buscas na web e, consequentemente, se automedicaram conforme os resultados encontrados.
 
SITE DE BUSCAS 
O vendedor Leonardo Henrique Gonçalves, de 23 anos, admite a prática. Nesta semana, ele esteve em uma drogaria para comprar um comprimido para gripe. O jovem afirma que, em caso de dor de cabeça ou situações “fáceis” de serem tratadas, quase nunca procura um médico. “O ‘doutor’ Google mostra o que pode ser. Na internet é possível saber qual remédio tomar”.

O perigo não está restrito aos sites. Diretor da Sociedade Brasileira de Clínica Médica em Minas, Breno Figueiredo Gomes reforça que toda medicação exposta favorece o consumo, como já é percebido em farmácias. “Aumentando a compra, independentemente da indicação, aumenta-se o risco”, alerta o médico.

De acordo com ele, todo remédio tem efeitos colaterais e perigos, se utilizado de maneira incorreta. “Os anti-inflamatórios são os principais exemplos”, explica. Conforme o especialista, o uso indiscriminado pode provocar sangramentos, gastrite e insuficiência renal.

Os abusos atuais, que já lançam um alerta, poderiam ter ganho uma dose extra de preocupação. Na quinta-feira, senadores e deputados retiraram da Medida Provisória (MP) 881/19 um trecho que permitiria a venda de medicamentos sem receita nos supermercados de todo o país. Chamada de Liberdade Econômica, a MP foi analisada por uma comissão mista do Congresso Nacional, que barrou a facilitação de compra.
 
PREJUDICIAL
A prática é capaz de causar danos irreversíveis. “Os índices de intoxicação medicamentosa são altos nas Unidades de Pronto-Atendimento (UPAs), e muitos casos acabam em morte. Às vezes, são remédios simples, que a pessoa está acostumada a tomar, mas se ela vê que está demorando a fazer efeito, corre o risco de ingerir doses a mais”, explica a presidente do Conselho Regional de Farmácia (CRF) de Minas Gerais, Yula Merola.
 
MONTES CLAROS
Em todo o ano de 2018, o Hospital Universitário Clemente Faria recebeu 80 pacientes intoxicados em decorrência da automedicação. Em 2019, somente até julho, já foram 102 casos. Um aumento de 27,5%.

A diarista Santana Araújo afirma que não gosta de automedicar-se, mas que acaba recorrendo à tática por ser a maneira mais fácil. “Tomo apenas os medicamentos que eu já conheço, na dosagem que já estou acostumada”, conta. 

De acordo com o médico endocrinologista Ezequiel Novais Neto, a autome-dicação causa mais problemas que se imagina e é muito comum nos pronto-socorros. 

“As pessoas tomam doses inferiores às adequadas, não obtendo os efeitos que buscam. Tomam também doses acima das ideais, expondo-se aos riscos da superdosagem ou intoxicação. Por fim, podem ficar desnecessariamente expostas às reações indesejadas das medicações, os chamados efeitos colaterais. Todas as condições podem gerar graves problemas ou mesmo pôr em risco a vida dos pacientes”, alerta. 

O médico ressalta ainda que mesmo que seja uma medicação considerada simples, como para dor de cabeça, é indicado procurar um especialista. “Tecnicamente é sempre adequada uma avaliação médica antes de tratar qualquer sintoma, por mais simples que possa parecer”, completa. 
(Colaborou Lucas Eduardo Soares)

Mulheres são as que mais se automedicam
Analgésicos, anti-inflamatórios, relaxantes musculares, antitérmicos, descongestionantes nasais, expectorantes, antiácidos e até antibióticos. Esses são os principais medicamentos consumidos por conta própria pela população, como mostra o estudo do Instituto de Ciência, Tecnologia e Qualidade (ICTQ).

Paracetamol, ibuprofeno, aspirina e diclofenaco fazem parte da lista de fórmulas mais vendidas. 

Dentre as pessoas que fazem uso de substâncias sem acompanhamento médico, pelo menos uma vez por mês, as mulheres são a maioria, conforme outra pesquisa, do Conselho Federal de Farmácia (CFF), em todo o país. 

Segundo o mesmo levantamento, dentre os entrevistados que seguem à risca as orientações do profissional de saúde estão os idosos e pessoas que cursaram até o ensino fundamental.
 
OPINIÕES
O empresário Erick Ribeiro Pimenta, de 22 anos, admite que, quando a dor de cabeça bate, não pensa em procurar um hospital. Mesma opinião tem a servidora pública Carolina Fonseca, de 39, que tem crises frequentes de enxaqueca.

“Já fui ao médico algumas vezes. Em cada consulta, um remédio diferente. Fiquei um pouco desacreditada. Hoje, quando sinto o mal-estar, já sei qual comprimido devo tomar. Sei que não é o mais adequado, mas tem dado certo”, relata.