Um problema comum, aparentemente simples e inofensivo, mas que esconde uma série de desdobramentos graves. Condição cada vez mais frequente, em função do estresse e da ansiedade do mundo moderno, o bruxismo provoca dores generalizadas – na cabeça, no pescoço e até na coluna – e pode ocasionar trincas e fraturas, levando à perda completa dos dentes.

Fernanda* sabe bem disso. Aos 35 anos, já precisou fazer sete implantes, por ranger e apertar os dentes, e ainda luta contra a disfunção, que consome não só o dinheiro, mas a saúde dela. “Sempre fui uma criança muito ansiosa e, por isso, logo cedo, meus dentes começaram a ficar bambos. Hoje, tenho canal em praticamente todos e, agora, estou tentando recuperar o espaço perdido por causa dos desgastes. Experimentei todas as medidas paliativas, mas nenhuma surtiu o efeito esperado”, lamenta, enumerando os tratamentos realizados: ansiolítico, para relaxar e dormir melhor; acupuntura, aplicação de botox e uso de placa, feita de resina acrílica, à noite.

Clínica-geral e implantodontista, Patrícia Morais explica que os movimentos da disfunção oral – apertamento e ranger – fragilizam principalmente os dentes que passaram por tratamento de canal, ou seja, que tiveram a polpa removida. “Maior parte dos pacientes que recebo para implante tiveram fratura por causa do bruxismo”, afirma. Para se ter uma ideia, a força colocada nos dentes posteriores pela pressão dos maxilares, devido ao apertamento, pode chegar a 80 quilos.

Graves, as conse-quências podem se arrastar por anos. A especialista explica que, ao contrário dos dentes íntegros, sem restauração, por exemplo, que, quando trincados provocam dor, estruturas que passaram por alguma intervenção, como canal, não geram desconforto. “O problema fica obscuro e, embora a pessoa não sinta nada, está sofrendo um processo inflamatório”, alerta.
 
VIGILÂNCIA CONSTANTE
Para frear as consequências do bruxismo, condição incurável, a recomendação é manter vigilância permanente, ensina o especialista em disfunção temporomandibular e ortopedia funcional dos maxilares, Orlando Santiago Júnior, que é professor nas Faculdades Promove e Funorte, em Belo Horizonte.

“A grande verdade é que só conseguiríamos resolvê-lo de forma absoluta se eliminássemos o estresse 100%. Como isso não é possível, é preciso fazer acompanhamento por toda a vida”, resume o profissional.

Ele explica que uma das consequências do apertamento e/ou ranger dos dentes – que também ocorrem durante o dia – é a disfunção da articulação temporomandibular (ATM). Alguns sinais do problema são dificuldade de abrir a boca, estalos próximos do ouvido e dores de cabeça, nas têmporas e pescoço.

Atual presidente da Comissão de Práticas Integrativas e Complementares em Saúde Bucal do Conselho Regional de Odontologia de Minas Gerais (CRO-MG), Maria Virgínia Cerqueira reforça que o tratamento adequado passa pela investigação individualizada dos hábitos do paciente. “Às vezes, um ajuste oclusal, da mordida, pode resolver”.  

Tratamento dever ser global
Embora muita gente aposte as fichas na placa, usada principalmente à noite, para amenizar os impactos do bruxismo na saúde, o tratamento adequado passa por um conjunto de terapias capazes de minimizar, principalmente, estresse e ansiedade.

Periodontista com atuação em disfunção temporomandibular, ronco e apneia do sono, Terezita de Fátima Fernandes explica que as causas da disfunção oral precisam ser bem investigadas para a indicação correta do tratamento. “A maioria dos casos é provocada por situações de estresse e ansiedade. É aí que entram as práticas integrativas. Mais do que trabalhar em nível local – o uso da plaquinha –, é preciso agir de maneira sistêmica, com acupuntura, por exemplo”, detalha a profissional, que utiliza a medicina chinesa no consultório.

“A acupuntura tem ação relaxante, anti-inflamatória, analgésica e ainda atua sobre ansiedade, pânico e uma série de outras emoções. Ao relaxar a musculatura, eliminando as tensões dos músculos envolvidos na mastigação, os mesmos afetados pelo bruxismo, diminuímos as possibilidades de ranger e trancar os dentes”, acrescenta.

Homeopatia, ozonioterapia, antroposofia e terapia com florais são outros recursos que também podem ser usados como paliativos, coloca a cirurgiã-dentista, especialista em ortopedia dos maxilares, Maria Virgínia Cerqueira – atual presidente da Comissão de Práticas Integrativas e Complementares em Saúde Bucal do CRO-MG.
 
TÉCNICAS
O professor Rubens Silveira Garcias, de 27 anos, descobriu o bruxismo há cerca de quatro. Atento à saúde bucal e à estética dos dentes, percebeu uma retração na gengiva de um dos caninos e correu para o consultório odontológico. Desde então, investe em um conjunto de técnicas que ajuda a driblar a ansiedade e a viver melhor e com mais saúde.  

“A placa é um paliativo, ajuda a não sofrer com as consequências do problema. Mas entendi que o bruxismo precisar ser tratado em vários âmbitos. Faço terapia, fisioterapia, que ajuda a soltar os músculos da mastigação, ajuste oclusal e também pilates. Numa escala de um a dez, diria que as dores diminuíram para cinco. Foi uma melhora gigantesca”, comemora.
*Nome fictício