Uma realidade permeada pela dor, sofrimento, angústia, fé e esperança. Há cerca de um ano e meio os profissionais da saúde estão imersos nesse mundo gerado pela Covid-19. Um momento de repensar a vida, rever conceitos, prioridades e valorizar a simplicidade e tudo o que se tem.

Nesse contexto, o enfermeiro Bruno Lopes Pereira, de 31 anos, viveu perdas, vitórias, tristezas e alegrias e acredita que cada uma dessas experiências o ajudaram a crescer, tanto pessoal quanto profissionalmente.

Ele se divide entre o Samu 192 Macro Norte e o Hospital das Clínicas Dr. Mário Ribeiro da Silveira. “Enfrentamos momentos angustiantes e difíceis, afinal, no início da pandemia havia poucas informações sobre o coronavírus. Tínhamos que estar preparados para tudo”, diz o enfermeiro.

Ele lembra que em meio a treinamentos e capacitações absorvia, todos os dias, assim como os colegas, uma carga de informação muito grande, protocolos vindos da Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) e da OMS (Organização Mundial de Saúde). “Várias mudanças que nos colocavam preparados para atuar no front da batalha contra o coronavírus”.

No instante mais crítico da pandemia, relata, o emocional já estava no limite e não foi fácil driblar a exaustão e o medo.

“Apenas um descuido e poderia conviver com a culpa de levar o vírus do ambiente de trabalho para meus familiares, sem contar a comunidade em geral, que em sua grande maioria encontrava-se em isolamento”, afirma.
 
ORAÇÕES
Neste período, ele conciliava os plantões entre o Samu e a UTI Covid, onde chegou a trabalhar por 48 horas ininterruptas. “Trabalhava e orava ao mesmo tempo. Deus é quem me dava forças e me mantinha firme o tempo todo”, reconhece.

A dedicação e o amor ao próximo, segundo ele, eram o combustível para sobreviver ao caos da pandemia. “Em cada paciente que retornava de uma parada cardiorrespiratória ou que recebia alta hospitalar após vários dias intubado, tinha um motivo a mais para dar glória a Deus”.
 
PERDAS
Mas as batalhas não paravam, o volume de pacientes só aumentava e, entre eles, começaram a chegar familiares, amigos e colegas de trabalho. Um novo desafio à frente.

“Uma das mais importantes lições é a importância de cultivar um olhar humano, solidário e gentil com quem está próximo de nós. Me recordo de um amigo que não teve a oportunidade de receber a tempo a vacina e acabou falecendo. Ele lutou bravamente. Fiquei por horas à beira do leito com ele, enquanto fazia a VNI (ventilação não invasiva). Ele ficava ansioso e queria tirar o equipamento a todo instante. Enquanto o acalmava e o orientava, ele segurou a minha mão e me disse assim: ‘Eu não quero morrer. Mas, se este for o meu fim, não solte a minha mão. Não quero morrer só, meu amigo. Fica comigo. Foi Deus que te trouxe aqui. Não saia daqui’. Aquelas palavras tocaram o mais profundo do meu coração, me transformando completamente a partir daquele momento. Sempre o levarei comigo (in memorian Walter, o Waltinho) ”, se recorda, com emoção.
 
OPORTUNIDADES
Entretanto, em um cenário de incertezas e angústias surgiram oportunidades que, de certa forma, renovaram a esperança de seguir crescendo e evoluindo enquanto profissional enfermeiro e também como ser humano.

“Completo exatamente um mês de atuação frente ao Neeps (Núcleo de Educação e Ensino Permanente em Saúde) do Hospital das Clínicas Dr. Mário Ribeiro, desenvolvendo treinamentos de caráter técnico e educativo, de cunho teórico e prático, com o objetivo de melhorar cada vez mais a qualidade da assistência da equipe multidisciplinar. Despertar a valorização dos nossos coordenadores é algo inexplicável”, celebra Bruno.

AUTOCUIDADO
A pandemia deixou claro para Bruno que todo mundo precisa se cuidar, por si e por todos. Para ele, o isolamento social, em vez de individualizar ainda mais as pessoas, apenas reforçou a necessidade de estar conectado com quem amamos. 

“A preocupação com o meio ambiente, a valorização dos serviços essenciais, a necessidade de melhoria no sistema de saúde brasileiro, tudo isso foi aprendizado”, enumera.

Bruno conta que jamais esquecerá tudo isso e que no futuro terá lembranças que o deixarão triste, mas também feliz por saber que foi possível vencer o vírus. 

“Todos nós perdemos pessoas importantes, únicas em nossas vidas. Talvez tenha passado pelo maior desafio de toda a minha vida: o de permanecer firme diante de uma rotina de serviço com unidades de tratamento intensivo superlotadas, pacientes graves, racionalização de equipamentos, vidas que se perderam, jornadas exaustivas. Este, sem dúvida, foi meu maior desafio na vida profissional”, diz.

Sobre a volta à normalidade, ele crê que as vacinas são capazes de nos levar de volta para o que éramos antes da Covid-19. 

“A curto prazo, elas ajudarão a evitar que os mais vulneráveis desenvolvam doenças graves e morram”, acredita.