Em comparação ao número total de casos descritos na população em geral, poucos casos de doença provocada pelo novo coronavírus foram relatados em crianças. Elas são menos susceptíveis ao vírus? Para responder essa e outras perguntas, conversamos com a médica Januse Borborema, de 47 anos, coordenadora do serviço de pediatria do Hospital das Clínicas Dr. Mário Ribeiro da Silveira. 

“Na verdade, as crianças são susceptíveis ao vírus e à doença. A diferença é que a imaturidade imunológica nas crianças pode ser, de certo ponto, positiva devido a uma resposta menos intensa ao vírus, provocando uma reação inflamatória menor, portanto apresentando formas mais brandas da Covid-19”, explica a médica.

Outras hipóteses são apresentadas pela pediatra para justificar esse baixo número de doenças graves nos pequenos: a vacinação, ausência de comorbidades comuns em adultos e ainda a menor exposição ao coronavírus, uma vez que a doença se espalhou primeiro entre os adultos.

“Temos que lembrar que todas as teorias são frágeis, temos apenas três meses de epidemia e necessitamos de muitos estudos para poder dar mais detalhes científicos sobre o novo vírus”, conta Januse.
 
Como está a situação em Montes Claros e no Norte de Minas, onde há caso suspeito entre crianças?
Ainda não temos casos confirmados em crianças no Norte de Minas. Os casos suspeitos têm sido relatados apenas em adultos, isso não significa que nos próximos dias não possamos ter um aumento da positividade em crianças com o aumento de testes disponíveis. 
 
Os sinais e sintomas de Covid-19 em crianças podem ser semelhantes aos de infecções respiratórias virais comuns ou outras doenças da infância? A que tipo de sintomas os pais devem ficar atentos?
Sim. Os sintomas em crianças, pelas experiências dos pesquisadores chineses, são tosse, congestão nasal, diarreia e dor de cabeça, sintomas comuns na maioria das patologias infantis, sendo que menos da metade dos infectados apresentou febre e a maioria foi assintomática, com recuperação sem tratamento em até duas semanas. Os sintomas importantes e que devem gerar maior atenção dos pais e/ou cuidadores são: febre alta (maior que 39°C) por mais de 48 horas, falta de ar, diarreia intensa e dor abdominal.
 
A mãe infectada pode transmitir o vírus através da amamentação?
Até o momento não foi descrito nenhum caso de identificação do vírus no leite materno, não havendo qualquer justificativa para suspensão. Cuidados da mãe infectada para com o recém-nascido são orientados pela Sociedade Brasileira de Pediatria e incluem: uso de máscara durante amamentação e cuidados com o recém-nascido, além de manter o berço da criança com 2 metros de distância da mãe infectada.
 
Quais as recomendações para as famílias com recém-nascidos e crianças para prevenção e controle da infecção? 
Diante de todas pesquisas conhecidas hoje no Brasil e no mundo, o distanciamento social ainda é o mais recomendado. Usar esse momento para adequar hábitos de higiene nas crianças é de extrema importância, como lavagem das mãos, proteção da boca sem usar as mãos ao espirrar, uso de álcool 70% para higienização quando não for possível a lavagem das mãos, uso de máscara, manter boa alimentação, atividade física, controle de doenças como asma, alergias e cardiopatias e isolamento de possíveis contaminados mesmo no ambiente familiar. Promover um ambiente saudável para diminuir a ansiedade das crianças neste período de isolamento até que possamos ser capazes de controlar e tratar adequadamente os casos positivos para Covid-19.
 
Como os profissionais do HC estão se organizando neste tempo de pandemia?
O HC vem promovendo isolamento de contato dos casos suspeitos, fornecendo equipamentos de proteção individual aos colaboradores, treinando as equipes tecnicamente para o atendimento da população, fazendo organização estrutural para recebimento de vítimas com o aumento dos leitos de CTI e formando uma equipe de referência para pronto-atendimento pediátrico, que inicia em 13 de abril, com profissionais renomados de Montes Claros. Está fazendo sua parte como instituição promotora de saúde e bem-estar da população do Norte de Minas.