Os números são impressionantes, assim como as histórias e dramas de cada pessoa envolvida nessa estatística. Montes Claros possui mais de 60 mil pessoas na lista de espera por uma consulta W – aquela realizada por especialistas e médico-operadores, sem as quais não se pode fazer cirurgias eletivas (sem urgência) pelo Sistema Único de Saúde (SUS).

Os dados, que constam em documento da Secretaria Municipal de Saúde, ao qual O NORTE teve acesso, chegaram às mãos do vereador Idelfonso Pereira Araújo (MDB). O relatório revela uma situação grave e caótica no setor da saúde no município.

Esse número mostra que cerca de 15% da população espera por uma consulta com especialista. São 61.034 pessoas que não sabem mais a quem recorrer para conseguir a vaga. Há casos de pacientes que perderam os exames realizados porque o prazo de validade deles se expirou enquanto esperava pela consulta com o médico.

Para se ter uma ideia da dimensão do problema, só por uma consulta com urologista há 3.655 pacientes na fila. “O quadro é grave e mostra que a saúde em Montes Claros é um buraco sem fundo, porque o município não está dando conta. Quem aguarda na fila vai só piorando, ou seja, o que é uma cirurgia eletiva hoje, amanhã vai ser urgência, o que é muito mais caro para a prefeitura”, criticou o vereador.
 
MAIS CARENTES
O problema afeta em cheio a população carente, que depende do serviço público de saúde. “Não é um secretário ou uma secretária que está lá em cima da cama, precisando de uma cirurgia, com dor e sofrimento. São pessoas humildes”, ressaltou Idelfonso.

Uma dessas pessoas bateu à porta do gabinete da vereadora Neia do Criança Feliz (DC), que compõe a base governista de Humberto Souto na Câmara. Mas a parlamentar afirma que a situação não pode continuar como está.

“A senhora entrou aos prantos no meu gabinete, chorava de dor e de desgosto, porque já tem dois anos que ela se encontra em uma lista de espera aguardando uma cirurgia ginecológica, está com mioma e cisto nos ovários e no útero, sofrendo hemorragias constantes quase todos os dias”, conta a vereadora.

Enquanto espera pela vaga para consulta, Neia diz que a mulher está “anêmica, sem forças para trabalhar, para cuidar da casa e dos filhos. Ela não tem o que vender para pagar as consultas e cirurgias: mora de aluguel, o esposo está desempregado e ela não tem condições de trabalhar devido à enfermidade”, lamenta a parlamentar.

A senhora citada por Neia está agora, novamente, com toda a documentação pronta, com o risco cirúrgico. “É preciso que seja feito algo para viabilizar as consultas, exames e cirurgias”, afirma a vereadora.

Município irá levantar volume de espera
A secretária municipal de Saúde, Dulce Pimenta, recebeu O NORTE na manhã de segunda-feira para falar sobre os problemas levados à Tribuna do Legislativo.

“A regulação está fazendo um levantamento para saber o que temos de demanda para cirurgia e o que temos de demanda para consultas especializadas e exames, e até mesmo para encaminharmos para o jurídico, para respondermos ao vereador”, disse a secretária. 

Dulce Pimenta disse que a demanda em Montes Claros é “absurda”, muito acima da média nacional, e que, por isso, o sistema teve que ser informatizado.

“Organizaremos isso de modo racional, mas consulta W é consulta cirúrgica, quem faz é só o especialista ou cirurgião e ele (Idelfonso) não falou apenas em consultas, mas em consultas e exames especializados. Porque consulta W é a que o médico avalia, que determina ou não a operação”, distinguiu a secretária.

Dulce frisou que não sabe “onde ele (Idelfonso) tirou esse número, qual é a fonte, mas esses números serão apontados oficialmente pelo levantamento da regulação, porque a orientação do prefeito é jogar todo mundo dentro do sistema, mesmo quem esteja esperando há dez anos”, finalizou.

O vereador Idelfonso Pereira Araújo (MDB) acredita que “certamente passou de 42 mil e pode chegar a 44 mil o número de pessoas que aguardam por consultas de especialistas”.

“A Secretaria de Saúde tem que agir para que esses pacientes não perambulem de gabinete em gabinete, em porta de hospital e posto de saúde para conseguir uma consulta, ou vender o que não tem para fazê-la, para pagar um exame”, alertou Idelfonso.