Remédios para “prevenir” ou “curar” a Covid-19. Vira e mexe, “indicações” circulam na web e causam alvoroço e dúvidas. A mais recente diz respeito ao vermífugo ivermectina, cuja procura vem aumentando. Em Montes Claros, os vermicidas já estão entre os principais medicamentos em falta nas farmácias, segundo Heitor Vilas Boas, gerente da maior rede da cidade. A procura por esse tipo de medicamento, afirma, aumentou 200% no último mês. 

“Agora exigimos a receita. Devido à alta procura, ficou difícil até para os fornecedores nos atenderem e com isso o preço do vermicida praticamente dobrou. Hoje o Annita (marca dentre as mais buscadas) custa em média R$130”, explica o farmacêutico. 

Outro medicamento que também tem sumido das prateleiras é o Azitromicina, outra “indicação” da web para o tratamento contra a Covid-19. Em junho e julho normalmente esse é um medicamento prescrito por conta do aumento dos casos de gripe e infecções na garganta, lembra também o farmacêutico.

A alta demanda pela ivermectina levou a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) a informar sobre a inexistência de estudos que comprovem o uso da fórmula para curar a Covid-19. Porém, ressaltou que não há pesquisas que refutem o uso para combater à enfermidade.

“Esse medicamento nunca entrou em protocolos (do Ministério da Saúde), não há como chancelar que ele terá algum efeito preventivo e terapêutico no caso da Covid. A hidroxicloroquina é polêmica, mas está autorizada a ser usada desde que o médico diga ao paciente que ela está no âmbito de pesquisa. Mas a ivermectina não entrou (nas diretrizes). Ela mostrou um benefício em laboratório e isso nunca replicou na condução de um caso clínico”, frisa o clínico geral Angelo Pimenta, médico intensivista. 
 
ALERTA
Até o momento, o fármaco é recomendado para tratamento de infecções causadas por vermes e parasitas que se instalam no organismo, além de problemas relacionados a ácaros, como sarna e piolho. 

O consumo de forma errada por trazer sérios problemas à saúde, enfatiza a presidente do Conselho Regional de Farmácia de Minas Gerais (CRF-MG), Júnia Célia Medeiros. A automedicação preocupa. “Esse medicamento não tem dose estabelecida, não é conhecido como antiviral. Isso não é prevenção”. 

Mesmo sem benefícios comprovados no tratamento contra a Covid, tem muita gente querendo garantir o remédio sob a alegação de que “ainda é vendido sem receita”. 
 
SEM EVIDÊNCIAS 
Além da ivermectina, há outros remédios que constantemente ganham espaço nas discussões sobre o combate ao coronavírus. A cloroquina, hidroxicloroquina e azitromicina são os mais citados.

Um protocolo do Ministério da Saúde, publicado em maio, indica o uso de cloroquina ou hidroxicloroquina para todos os casos de Covid-19, dos mais leves aos mais graves. No mês passado, a recomendação incluiu crianças e gestantes. 

Mas o Conselho Regional de Medicina de Minas esclarece que, atualmente, não há evidências científicas para indicação desses fármacos no tratamento contra o novo coronavírus. 

A entidade defende a autonomia do médico, que pode prescrever ou não quaisquer desses medicamentos, preconizando sempre os cuidados protetivos, como isolamento social, higiene rigorosa e uso de máscaras. Ainda segundo o CRM, a prescrição do especialista, neste momento de pandemia, não caracteriza infração ética. 

“O médico que optar por prescrever tais medicamentos deverá elaborar o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido, detalhado, compreendido e assinado pelo paciente. A conduta do médico deve ser anotada no prontuário, seja ela de prescrição ou não”, explicou o conselho, em nota.

(*) Colaborou Cristine Antonini