Seja qual for, a imagem refletida não agrada. Aos olhos de quem sofre com Transtorno Dismórfico Corporal (TDC), uma parte está com defeito. Ainda que esteja tudo perfeito. A preocupação obsessiva com algum aspecto da imagem ou uma avaliação distorcida de pequenas alterações corporais compromete autoestima, saúde mental, vida social e profissional. E requer tratamento.

A dismorfia é conhecida pelos médicos desde o século 19, mas só recentemente, com o engajamento de artistas mundialmente famosos ao debate, começou a ser discutida publicamente. Robert Pattinson, da saga “Crepúsculo”, e Megan Fox, já considerada a mulher mais sexy do mundo, foram diagnosticados com o transtorno. 

Especialistas estimam que a doença atinja 4 milhões de brasileiros de 15 a 30 anos. A maioria, mulheres. “Dados preliminares de uma pesquisa que a Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica (SBCP) deve divulgar ano que vem revelam que o Brasil é o segundo país que mais realiza cirurgias estéticas no mundo, atrás apenas dos EUA. Muitas pessoas acham que a cirurgia vai resolver o problema da dismorfia. Esse paciente quer se submeter a inúmeros procedimentos para corrigir problemas mínimos, e nunca fica satisfeito”, afirma Vagner Rocha, secretário da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica – Regional Minas Gerais (SBCP-MG) e presidente eleito para o biênio 2022-2023.

Segundo o cirurgião, a dismorfia ou síndrome da distorção de imagem não deve ser confundida com as estratégias de embelezamento ou com a vaidade, o que é natural e positivo para a maioria das pessoas. Nesse tipo de transtorno, as características físicas causam uma angústia significativa e afetam até mesmo situações do cotidiano.

“A pessoa tem o que chamamos síndrome do espelho, uma percepção alterada de si mesma”, afirma Wagner Rocha. “Costumamos receber em nossos consultórios pacientes que querem nos convencer de todo jeito de que precisam de uma cirurgia plástica, quando na verdade 30% a 40 % dos que fazem uma consulta presencial não têm indicação de cirurgia alguma”, acrescenta o cirurgião.
 
APARÊNCIA 
A causa específica do transtorno não é conhecida, mas pode ser o resultado de uma combinação de problemas, como histórico familiar ou experiências ruins sobre a autoimagem, vividas em especial na adolescência.

Muitas vezes, a dismorfia corporal está ligada ao transtorno alimentar e a outros distúrbios e, em muitos casos, as pessoas sentem muita vergonha da aparência. Isso a leva a deixar de frequentar lugares e interagir com pessoas. Caso da assessora comercial Letícia Dourado, de 38 anos, diagnosticada com bulimia nervosa e dismorfia.

Letícia relata que até os 13 anos sofria bullying na escola por ser vista como muito magra. Após os 15 anos começou a engordar e a sofrer pressão em casa para fazer dieta. Quando adulta, depois que ficou grávida, há dois anos, começou a comer muito. Não conseguia conter o impulso.

“Estar fora dos padrões incomoda muito, por isso não uso short, saias e só uso roupas fechadas. Quando tenho que sair de casa, fico muito mal emocionalmente, não consigo socializar. Sempre acho que as pessoas ficam olhando, rindo e zombando de mim. Isso me deixa muito triste”, relata.

Muitos pacientes diagnosticados com dismorfia frequentam os consultórios dos dermatologistas, diz Marina Espósito Satler Umann, dermatologista clínica e estética. 

“Não estamos falando sobre pequenos procedimentos para harmonizar partes do corpo e trazer mais bem-estar e satisfação para o paciente”, pontua. “No cenário em que as pessoas passaram muito tempo isoladas e que a autoimagem se voltou para o digital e home office, percebemos aumento de 30% de pessoas que querem modificar o corpo, quando comparamos o primeiro semestre de 2021 com todo o ano passado. Geralmente são pessoas que têm muito receio da não-aprovação do outro”, relata a médica.
 
ALERTA AOS PAIS
As percepções sobre o transtorno dismórfico corporal variam conforme o paciente. “Quanto mais convencida ela estiver de sua percepção, com mais angústia e perturbação passa a viver”, avalia a psiquiatra Jaqueline Bifano.

Os cuidados envolvem psicoterapia, apoio familiar e medicação. Fundamental ter consciência do problema e procurar ajuda. Especialista no atendimento de crianças e adolescentes, Bifano relata que cada vez mais jovens estão querendo se submeter a procedimentos estéticos ao se deparar com qualquer insatisfação corporal.

“Na adolescência, a dismorfia corporal se concentra geralmente entre a faixa de 12 a 16 anos. Na fase adulta, é mais comum entre os 20 e 40 anos. Não é difícil fazer o diagnóstico, pois são pacientes que nunca estão satisfeitos com a imagem. Mudam o cabelo, o visual, têm transtorno de ansiedade, alterações do sono e depressão”.

A psiquiatra ainda alerta que os pais precisam manter diálogo frequente com adolescentes e deixar claro que o que se vê na internet, na maioria das vezes, não é real. “Devem se conectar aos filhos e estar sempre atentos aos sintomas”. 


Os sinais e sintomas do Transtorno Dismórfico Corporal incluem:
 
- Preocupação excessiva com uma imperfeição física imperceptível aos outros
 
- Percepção distorcida da aparência que o torna feio ou deformado
 
- Preocupação de que os outros prestem atenção à aparência de maneira negativa
 
- Constantes tentativas de esconder as falhas
 
- Comparações entre a própria aparência e a de outros
 
- Tendências perfeccionistas
 
- Busca excessiva por procedimentos cosméticos e estéticos
 
Fonte: SBCP