Um dos principais aliados na luta contra a pandemia de Covid-19, o álcool em gel também pode ser um vilão, se usado sem os devidos cuidados. Recomendado para a higiene das mãos, o produto com concentração de 70% elimina o vírus, mas oferece alguns riscos, principalmente às crianças.

Ensinar a forma correta de uso, supervisionar a aplicação, mostrar que não se pode levar as mãos aos olhos e manter o frasco fora do alcance dos mais novos são atitudes simples, mas cada vez mais importantes. 

O alerta aos pais ganhou mais força nessa semana, após uma mãe relatar o acidente ocorrido com o filho, de 5 anos, nas redes sociais. O menino manipulava um frasco quando o gel jorrou direto nos olhos. Ele teve a córnea queimada e, por pouco, não perdeu a visão. 

Diante do desespero do garoto, que sentia fortes dores, a mãe lavou a região com água, mas precisou levá-lo a um oftalmologista. Ele segue em recuperação, mas deve ficar bem.

Em casos como esse, os riscos vão desde uma simples irritação a uma grave lesão na córnea, alerta a médica Ariadna Muniz, do Hospital de Olhos da Fundação Hilton Rocha. “Isso queima e a dor é horrorosa. As mães devem ficar atentas, porque é tóxico”, explica. 

A médica observa que, dependendo da gravidade da lesão, o paciente pode precisar até mesmo de transplante de córnea – que exige fila de espera e há risco de rejeição. 

A oftalmologista também reforça o alerta aos adultos. “Já atendi um paciente que pegou acetona em vez de soro fisiológico para lavar os olhos e teve a córnea queimada. Ninguém deve colocar nenhuma substância nos olhos sem indicação médica”, adverte.
 
AUMENTO DE CASOS
O menino de 5 anos que teve a córnea queimada foi levado para o Instituto Penido Burnier, em Campinas. Lá, os atendimentos a queimaduras oculares em crianças são baixos no pronto-socorro. No entanto, cresceram após a chegada do novo coronavírus. 

“Em relação a antes da pandemia, houve um aumento em torno de umas quatro vezes”, revela o presidente do Instituto, Leôncio Queiroz Neto.

O médico explica que o álcool é um desidratante, que desipteliza a córnea – ou seja, tira a proteção externa –, abrindo espaço para uma infecção. “Geralmente, a dor é muito grande nesses casos e as pessoas vêm ao oftalmologista mesmo”. 

Felizmente, a regeneração é rápida, como ocorre com o menino.

Um serviço de atendimento médico por telefone, que funciona há mais de 40 anos, no Hospital de Pronto-Socorro João XXIII (HPS), em Belo Horizonte, orienta as pessoas em casos como o da criança que teve a córnea queimada por álcool em gel e outros problemas de saúde. Basta ligar para (31) 3224-4000 ou 0800-7226001. O serviço é oferecido por 24 horas. Coordenador do Serviço de Toxicologia do HPS, o médico Adebal Andrade Filho revela que o hospital não registrou caso grave com álcool em gel, mas o diagnóstico de intoxicações com produtos de limpeza – como água sanitária, sabão e outros detergentes – aumentou 8% nos quatro primeiros meses deste ano, na comparação com o mesmo período de 2019. O infectologista atribui esse avanço especialmente ao fato de as pessoas estarem guardando mais produtos de limpeza, em razão da pandemia do novo coronavírus. “O mais indicado é não estocar grandes quantidades em casa e colocar fora do alcance das crianças, em local fechado”, ensina, lembrando que crianças de 3 a 4 anos conseguem alcançar lugares mais altos.