As mortes por Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG) causadas por gripes, pneumonias e outras doenças supostamente não relacionadas à Covid-19 deram um salto de quase 800% em Minas Gerais neste ano. Em 2019, conforme dados da Secretaria de Estado de Saúde (SES), foram 578. Mas nos últimos nove meses, em plena pandemia, chegaram a 4.946 até 16 de setembro.

Desse total, 4.522 óbitos foram registrados tendo como causa a SRAG sem especificação da doença que serviu de gatilho para a síndrome ou colapso respiratório. Isso, segundo especialistas, pode “esconder” o registro de ainda mais casos de contaminação pelo novo coronavírus. No ano passado, as mortes sem causa detectada foram 445.

“Principalmente no início da pandemia, se tem baixa testagem, não permite confirmar se a pessoa foi contaminada ou não”, destaca a pneumologista Ana Lúcia Maranhão, médica do Grupo Iron e professora licenciada da Universidade Federal do Rio de Janeiro (Unirio).

A SRAG ficou mais evidente por causa da pandemia, mas a enfermidade sempre existiu. A condição é caracterizada por uma sensação de falta de ar e incapacidade dos pulmões de manterem normal a troca gasosa no organismo. Além do novo coronavírus, pacientes com quadros de gripe e pneumonia, dentre outras enfermidades infecciosas, podem evoluir para a síndrome.

Diretora de Vigilância de Agravos Transmissíveis da SES, Janaína Fonseca atribui o aumento considerável das notificações à “maior sensibilidade do profissional de saúde” por causa do cenário atual. “Tínhamos subnotificação, mas quando tem pandemia ou surto, os profissionais ficam muito alertas e notificam tudo o que entra (dessa condição)”.

Sobre as mortes por SRAG sem causa identificada, Janaína Fonseca diz que isso ocorre porque, feita a investigação, alguns exames apresentam resultado “não detectável”. “É um conjunto imenso (de vírus), a gente pesquisa os principais, mas podem ter outros que o exame não está disponível”, explica.

A própria secretaria não descarta que, nesse bolo, estejam casos subnotificados de Covid-19, apesar de o protocolo do Estado preconizar a testagem de todos os pacientes graves e óbitos. “Pode ter sido um lapso do profissional ou do município a não testagem ou, então, testou e não encontrou o vírus. Pode também ter dado um resultado negativo e não conseguiram elucidar aquele caso”, frisa a diretora da SES. 
 
CRESCENTE 
Apesar da pandemia, que aumentou as notificações de SRAG, o cenário acende o alerta, diz a pneumologista Ana Lúcia Maranhão. Segundo ela, o crescimento de doentes vem sendo observado desde 2012 em todo o país. Naquele ano, conforme dados da Fundação Oswaldo Cruz, 629 brasileiros perderam a vida em decorrência da síndrome respiratória. 

Já em 2013 saltou para 2.801. “De lá pra cá, teve taxa acima da média. Em todo esse período, tivemos muito mais casos de H1N1 reportados. Com a vacinação, a tendência foi de estabilização e o crescimento voltou agora, com a pandemia”, explica a médica. 

A especialista alerta que o índice de mortalidade dos pacientes que evoluem para SRAG chega a 40% entre os que precisam ser internados na UTI. No caso da gripe, quem faz parte do grupo de risco deve se vacinar.

Em 2020, até 16 de setembro, 11.365 mineiros morreram por SRAG, sendo 6.419 em decorrência de Covid. Ao excluir os óbitos pelo coronavírus, os que foram causados por enfermidades como gripes e pneumonias, dentre outras, chegam a 4.946