Com cerca de 400 mil habitantes e uma população flutuante que eleva este número até um milhão, Montes Claros vive realidades distintas com relação à pandemia do novo coronavírus. De um lado, há pessoas que podem ficar em casa e se blindar da contaminação. De outro, há os que precisam se deslocar para trabalhar, se expondo ao vírus. Essa situação desigual tem incomodado e gerado revolta nos servidores municipais: enquanto eles têm que se deslocar até a prefeitura para realizarem suas atividades, o prefeito tem a alternativa de ficar em casa, por pertencer ao grupo de risco, e faz valer o seu direito. Há oito meses o líder do Executivo não frequenta o prédio da prefeitura. Mas, para os servidores, mesmo os que estão no grupo de risco, não existe essa opção e estão obrigados ao trabalho presencial.

Essa é a realidade de inúmeros servidores dos mais de 10 mil que trabalham para o município e que, apesar da saúde comprometida ou da idade, acima de 60 anos, estão diariamente no prédio da Prefeitura de Montes Claros ou nas secretarias. O contato próximo com colegas e com a população, a convivência em ambientes muitas vezes inadequados, trazem embutido o medo, a ansiedade, a angústia, que são responsáveis por um quadro emocional degradante, que reflete no desempenho do trabalho.

Alguns têm gasto parte do salário com médicos para protegerem tanto a saúde física quanto a psicológico. Alguns, inclusive, em decorrência das comorbidades e da saúde fragilizada, são afastados por meio de atestados médicos. Muitos reclamam que, além desse gasto a mais, ainda tiveram o percentual de desconto para a Prevmoc aumentado pelo prefeito Humberto Souto, reduzindo o salário.

“Será que lei foi feita apenas para o prefeito? Por que ele pode ficar em casa, ter todas as regalias, ter teste à disposição, enquanto nós nos submetemos a isso?”, questiona o servidor C., que pertence ao grupo de risco. Ele ainda revela que constantemente os secretários dispensam o uso da máscara, especialmente no terceiro andar, e que alguns fazem uso de cigarro pelos corredores, expondo os subordinados a uma situação “incômoda e perigosa”.
 
AFASTAMENTO
Os funcionários pleiteiam o mesmo tratamento dado aos servidores do Estado. O governo decretou o afastamento dos servidores do grupo de risco, sem previsão de retorno.

Para o presidente do Sindicato dos Servidores Municipais, Flávio Célio Oliva, “é errada essa situação”. “A partir dos 60 anos, o servidor entra no grupo de risco e deveria estar trabalhando em casa. Nós vamos colher todas as demandas e buscar uma solução junto ao procurador, que é quem está despachando no lugar do prefeito”, disse Flávio.

O setor de epidemiologia da prefeitura afirmou que apenas a secretária de Saúde, Dulce Pimenta, está autorizada a dar entrevista. Não conseguimos contato com a secretária e a Assessoria da Prefeitura não retornou até o fechamento da edição.
 
CÂMARA
Se no Executivo não existe um controle da situação, no Legislativo o quadro não é diferente. Foram constatados casos positivos para Covid e os servidores mantiveram a rotina inalterada. O período eleitoral restringe a divulgação de atividades, mas, mesmo assim, setores como o da comunicação continuam presenciais.

Em determinados espaços da Casa, o ambiente é fechado e não tem ventilação natural, o que, de acordo com autoridades de saúde, juntamente com o ar-condicionado ligado, aumentam a probabilidade de contágio.

Nas redes sociais, há informações de que muitos casos estariam ocorrendo no local, sem merecer a devida atenção do poder público.

O presidente da Câmara, Marcos Nem, afirmou que não havia sido comunicado do mais recente caso confirmado como positivo. Segundo ele, o funcionário estaria de férias e provavelmente não houve contato com outros servidores. Sobre colocar os funcionários em home-office, até que se tenha um diagnóstico de toda a situação, o presidente disse que já estaria mantendo um número menor de pessoas no espaço, mas que se reuniria com outros vereadores para rever a situação e afirmou que irá acionar a Secretaria Municipal de Saúde para providenciar a testagem dos funcionários.