A situação da educação pública municipal em Montes Claros, que já apresentava problemas antes da pandemia, agora se tornou um verdadeiro martírio para professores e pais de alunos, que acompanham o descaso da prefeitura com a forma de encaminhar o ensino durante a quarentena.

A tão prometida cesta básica para ajudar as famílias carentes, já que as crianças estão sem a merenda escolar, não chega aos lares onde poderia fazer toda a diferença. A jornada de trabalho dos professores é pesada e o município ainda jogou para eles a responsabilidade de imprimirem o plano de aulas e outros materiais didáticos.

Desde a suspensão das aulas presenciais, em março deste ano, os professores estão trabalhando em casa e afirmam que vêm se adaptando ao modelo de ensino. Mas alertam que o aprendizado está sendo prejudicado por constantes exigências da Secretaria Municipal de Educação e sem nenhuma contrapartida do município.

“É injustificado o que eles pedem. É anexo atrás de anexo, os professores estão sobrecarregados e o conteúdo não está sendo absorvido pelos alunos, mas a secretaria não se preocupa em resolver as questões principais. Nos informaram que as escolas não têm dinheiro para comprar folhas e cada professor terá que imprimir os seus anexos (plano de aula)”, disse C.R..

“Nas escolas de periferia, os pais dos alunos não têm conseguido acompanhar as atividades com os filhos. Muitos deles não são alfabetizados. Já nos bairros nobres, a secretaria envia o conteúdo a cada pai ou mãe de aluno por aplicativo. Ou seja, quem já vivia uma situação de precariedade no dia a dia, está ainda mais fragilizado e sem receber qualquer atenção do município”, criticou a professora.
 
SEM ALIMENTAÇÃO
Na casa de L.S.X., a cesta básica prometida pelo município seria a salvação. “Só recebemos a cesta uma única vez. De lá para cá, estamos nos virando para sobreviver. Estamos desempregados, eu e meu marido. Faço bicos como manicure para colocar comida dentro de casa. Com as aulas, pelo menos a alimentação dos meninos estava garantida”, disse ela, que tem dois filhos matriculados na rede pública de ensino da cidade.

Na última semana, L. recebeu um kit merenda com mandioca, chuchu e abóbora. O alimento entregue pela secretaria, segundo uma professora que pediu para não ser identificada, seria um “cala boca” para que os pais parassem de cobrar a entrega das cestas básicas.
 
SEM REFORMA
E os problemas não param por aí. Há prédios que abrigam escolas sem condições para isso. Um exemplo é a unidade rural de Canto do Engenho. No início do ano, a Comissão de Educação do Legislativo visitou a escola após várias denúncias de que o espaço estaria sem condições estruturais e de higiene, colocando em risco a vida dos alunos.

Seis meses depois da constatação dos problemas pelos parlamentares, a promessa de reforma não foi cumprida. “A comissão esteve aqui e falou que esta seria a próxima escola a ser reformada. Logo depois, vieram uns homens aqui e trocaram algumas telhas, mas depois desapareceram. Já se passou muito tempo. Não acredito que vão fazer a reforma”, disse um morador do local.

O vereador Ildeu Maia (Progressistas) questionou a destinação do recurso para a educação e pontuou que, assim como na saúde, não está havendo transparência do Executivo neste setor. “A Educação está fechada. As aulas não estão acontecendo. Por que não aproveitaram o período para reformar? Por que não usaram o recurso para colocar internet gratuita nos bairros mais carentes? Por que não entregaram cestas para os pais de alunos que estão passando necessidade? Infelizmente, tem muita coisa errada acontecendo e o prefeito só se importa em falar que é honesto. Que honestidade é essa? Senhor prefeito, para onde está indo o dinheiro da educação?”, questionou o vereador.

A secretária de Educação, Rejane Veloso, foi procurada para falar sobre o assunto, mas não atendeu as ligações.