Dário Cotrim

Roda a roca-de-fiar

Publicado em 12/08/2022 às 22:01.

A minha avó, Ana Maria Meira Couto, da saudosa vila do Gentio, foi uma eximia fiandeira com a sua roca-de-fiar - ou roda giratória -, para a produção de fios na tecelagem de panos. Ou das peças de fazenda para a confecção de vestimentas pessoais. Os teares de fundo de quintal tinham uma serventia inquestionável, assim como as almofadas de rendas, no canto da sala, que constantemente complementava a arte dos bordados nas roupas femininas. Ademais, a minha mãe-Veia do Gentio, com a sua roca-de-fiar, fazia fios e muitos fios para tramar a própria vida. Por tudo isso podemos dizer que: cada roca com o seu fuso e cada povo com o seu uso.

Pesquisando a história das rocas-de-fiar, encontramos muitas afirmações e, também, muitas dúvidas sobre a sua existência. Sabe-se que o seu surgimento se perde nesta ocasião, haja vista que não há vestígios seguros para uma afirmação sobre o aparecimento do primeiro equipamento dessa modelagem.  

Baseado em estudos dos pesquisadores através dos tempos, entendemos que a origem da roca-de-fiar teve como seu berço natalino, na Índia, entre os anos 500 e 1000d.C.. Entretanto há informações de que a roca-de-fiar teria sido originado na China e, depois, se espalhou para o Irã, foi para a Europa. Durante o período colonial, veio assentar-se em solo brasileiro com toda a sua magia e encanto!  

Surgiu pela necessidade de se ligar as fibras vegetais e/ou animais em linhas ou fios, os quais foram, em seguida, tecidos por um tear e transformados em panos para diversos usos. Sempre dizia a fiandeira dona Tiunilia da Silva Pimentel para a sua filha Julinha: 

“Menina deixa a boneca/vem pra roca-de-fiar/deixa de ser tão sapeca/e vem logo trabalhaiá/seu funcinho tem meleca/está na hora de limpar/portanto, deixe a boneca/ e roda a roca-de-fiar/ seu avô já tá careca/ de tanto lhe aconselhar”.

Então, o que foi feito das rocas-de-fiar? Ninguém sabe, ninguém viu e elas desapareceram como num passe de mágica. Sabe-se que poucas pessoas preocupariam em guardar uma engenhoca, sem serventia, a vida inteira e, em razão disso, o tempo ocupou-se em destruí-las, morosamente, em um canto qualquer de um qualquer terreiro e/ou quintal. Entretanto, a saudosa roca-de-fiar, da fiandeira dona Tiunilia, ocupa agora um lugar solitário e silencioso do Memorial de Guanambi, como bem convém a um objeto de museu.

O Instituto Histórico e Geográfico de Montes Claros ainda não possuiu um exemplar. Fica aqui o nosso apelo: se você tem uma roca-de-fiar e não sabe o que fazer com ela, faça, então, uma oferenda ao egrégio IHGMC. Seria interessante que a população de Montes Claros conhecesse de perto a engenhoca dos tempos de nossos avós. O museu do Instituto fica aberto de 2ª a 6º, das 8h às 11h30, à rua Coronel Celestino, 140, Corredor Cultural. Faça-nos uma visita! É grátis e tem acompanhamento qualificado. 

Se você tem uma roca-de-fiar e não sabe o que fazer com ela, faça, então, uma oferenda ao egrégio IHGMC. Seria interessante que a população de Montes Claros conhecesse de perto a engenhoca dos tempos de nossos avós.

(*)diretor de Museu do IHGMC

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