Wendell Lessawendell_lessa@yahoo.com.br

Redefinindo prioridades: o que realmente importa?

Publicado em 07/01/2026 às 19:00.

Dizem que o tempo coloca tudo no lugar. Mas talvez o tempo só mostre onde andamos colocando tudo. A cada novo ano que começa, essa percepção volta com força: corremos muito, mas será que corremos na direção certa? Vivemos ocupados, mas será que estamos ocupados com o que realmente importa?

A sociedade contemporânea vive um paradoxo curioso: nunca tivemos tantas opções e, ao mesmo tempo, tamanha confusão sobre o que escolher. A pluralidade cultural e moral do nosso tempo expande horizontes, mas também gera uma espécie de vertigem — o excesso de caminhos paralisa. “Siga seu coração”, dizem. Mas e se o coração estiver desorientado? E se aquilo que desejamos estiver desalinhado daquilo que realmente é bom?

No Sermão do Monte, uma das passagens mais célebres da tradição cristã, Jesus propõe uma reorientação radical de vida. Ele fala a um povo aflito por necessidades básicas: o que comer, o que vestir, como sobreviver. E então, em um convite surpreendente, Ele declara: “Busquem, em primeiro lugar, o Reino de Deus e a sua justiça, e todas essas coisas lhes serão acrescentadas” (Mateus 6.33). Uma frase curta, mas profunda como um oceano.

Essa não é uma exortação ingênua para abandonar responsabilidades. Jesus não está promovendo uma espiritualidade alienada ou escapista. Ele está, na verdade, estabelecendo uma hierarquia de valores: a prioridade da vida não deve ser ansiosamente manter o controle sobre o que é passageiro, mas confiar e alinhar a vida com o que é eterno.

O que Jesus chama de “Reino de Deus” pode soar distante para ouvidos modernos, mas a ideia central é compreensível por qualquer um: trata-se de uma vida vivida sob a direção de algo maior do que o ego. É a busca pela justiça que não nasce apenas da lei, mas da integridade; é a decisão de colocar os princípios — e não apenas os impulsos — no centro das escolhas. É, sobretudo, a percepção de que o ser humano floresce de verdade quando se volta para a Fonte da vida, e não apenas para seus sintomas.

O novo ano é um convite a essa virada. Não basta listar novos hábitos, metas ou cursos. É preciso refletir sobre o que nos move, o que nos define e onde está ancorada nossa esperança. Muita gente se sente frustrada não por falta de esforço, mas por ter se empenhado no que não permanece. Trabalhou duro, acumulou conquistas, mas negligenciou afetos, valores e convicções profundas. Foi bem-sucedido em tudo, menos em ser inteiro.

O chamado de Mateus 6.33 não é apenas religioso — é existencial. Ele nos convida a redefinir prioridades a partir de uma visão que transcende o agora. Ele nos lembra que a vida não se mede apenas em resultados, mas em fidelidade. Que vale mais uma consciência em paz do que uma agenda lotada. E que, por mais que o mundo mude, certas verdades permanecem como rochas no meio da maré.

É claro que essa perspectiva exige coragem. Num tempo em que a visibilidade vale mais do que a verdade e a aparência pesa mais do que o caráter, escolher o que realmente importa pode parecer insano. Mas, ironicamente, é essa “loucura” que tem sustentado homens e mulheres ao longo da história — não apenas religiosos, mas todos os que ousaram viver com propósito maior que o próprio umbigo.

Redefinir prioridades é, antes de tudo, um ato de humildade. É admitir que talvez tenhamos nos distraído, nos iludido, nos perdido. E é também um ato de fé — mesmo para quem não se considera religioso. Fé de que existe um sentido maior, uma justiça que não se dobra ao imediatismo, um Reino que não é feito de tijolos, mas de valores que sobrevivem às estações da vida.

Para os cristãos, isso significa render o coração a Deus e permitir que ele seja o centro da vida — não como um acessório devocional, mas como Senhor. Para os que não compartilham da mesma fé, o desafio ainda permanece: viver com profundidade, integridade e um senso de responsabilidade que vá além do próprio bem-estar.

O novo ano não precisa ser uma repetição do anterior com cosméticos diferentes. Pode ser, de fato, um recomeço. Não apenas para fazer diferente, mas para desejar diferente. Para buscar, em primeiro lugar, o que vale mais do que todas as outras coisas somadas.

E então, talvez, como prometeu Jesus, tudo o mais será acrescentado — não necessariamente como queremos, mas como precisamos. Porque quando a vida é organizada ao redor do essencial, o secundário encontra seu lugar. E o coração, finalmente, encontra descanso.

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