Wendell Lessawendell_lessa@yahoo.com.br

Quando tudo parece vapor

Publicado em 13/05/2026 às 19:00.

Há palavras antigas que continuam descrevendo com precisão desconfortável o coração humano. “Vaidade de vaidades, tudo é vaidade”, escreveu o pregador de Eclesiastes. A expressão hebraica hebel carrega a ideia de algo semelhante a vapor: visível por um instante, mas incapaz de permanecer. Não se trata apenas de futilidade moral, mas de fragilidade existencial. A vida, quando observada apenas pelos critérios terrenos, parece escapar entre os dedos antes mesmo que consigamos compreendê-la plenamente.

O curioso é que essa percepção não nasce da pobreza ou da ausência de oportunidades. Salomão fala a partir do topo. Ele experimentou riqueza, prazer, reconhecimento, conhecimento e poder. Provou aquilo que muitos ainda acreditam ser suficiente para preencher a existência. Contudo, ao final do percurso, concluiu que nada disso sustentava verdadeiramente o coração humano. O problema não estava nas coisas criadas em si, mas na tentativa de transformá-las em absolutos capazes de suportar o peso da alma.

A modernidade sofisticou essa mesma busca. Hoje, o significado da vida costuma ser procurado no desempenho profissional, na visibilidade social e na experiência contínua de satisfação pessoal. O indivíduo contemporâneo é pressionado a construir uma identidade admirável, produtiva e constantemente atualizada. Trabalha-se muito para parecer relevante, para não desaparecer no fluxo acelerado das imagens e informações. Entretanto, quanto mais dependemos do reconhecimento externo, mais frágeis nos tornamos internamente diante da inevitável instabilidade da vida.

As redes sociais intensificaram esse fenômeno de maneira impressionante. Nunca foi tão fácil projetar felicidade, sucesso e realização. Mas também nunca foi tão comum experimentar ansiedade, comparação e esgotamento emocional. Vivemos em uma cultura da exposição contínua, onde o valor pessoal frequentemente parece depender da capacidade de permanecer visível. O problema é que aquilo que se sustenta apenas na aprovação pública inevitavelmente se dissolve quando os olhares mudam ou simplesmente se voltam para outro lugar.

Eclesiastes confronta exatamente essa lógica. O pregador não despreza o trabalho, o prazer ou o conhecimento. Ele reconhece que tudo isso possui lugar legítimo dentro da criação. O erro começa quando aquilo que é transitório assume o lugar do eterno. Quando coisas boas passam a funcionar como deuses silenciosos. O coração humano foi criado para algo maior do que sucessos passageiros. Por isso, mesmo as maiores conquistas se mostram insuficientes quando carregam a expectativa de oferecer significado absoluto à existência.

A tradição reformada sempre insistiu que a criação é boa, mas incapaz de substituir o Criador. Essa distinção é decisiva. O problema não é possuir bens, cultivar projetos ou desfrutar alegrias. O problema surge quando esperamos dessas coisas aquilo que apenas Deus pode oferecer: identidade definitiva, segurança plena e satisfação duradoura. Nenhuma realidade limitada consegue suportar o peso da eternidade que o próprio Deus colocou dentro do coração humano. E, quando tentamos forçá-la a isso, tudo começa a perder consistência.

Essa percepção não deveria produzir desespero, mas lucidez. Eclesiastes não é um livro pessimista no sentido vulgar da palavra. Ele não ensina que nada importa, mas que tudo precisa ser colocado no lugar correto. O pregador desmonta ilusões para que a vida possa ser reconstruída sobre fundamentos mais sólidos. Há algo profundamente libertador em reconhecer que o mundo criado não foi feito para carregar sozinho nossas expectativas mais profundas. Isso nos permite desfrutar das coisas sem transformá-las em ídolos.

Talvez uma das maiores crises contemporâneas seja justamente a dificuldade de lidar com a transitoriedade. Não sabemos envelhecer, perder ou esperar. Tentamos congelar a juventude, prolongar sensações e impedir que o tempo revele nossa fragilidade. Mas o vapor continua se dissipando. O corpo muda, as circunstâncias oscilam, as conquistas passam. E quanto mais tentamos transformar o passageiro em definitivo, maior se torna a sensação de vazio quando inevitavelmente tudo muda diante de nós.

A fé cristã oferece uma resposta distinta para essa inquietação. Ela afirma que a vida encontra consistência não quando eliminamos a fragilidade, mas quando reconhecemos o Deus eterno no centro da existência. Fora dele, até o sucesso perde sabor. Com ele, até as pequenas alegrias ganham profundidade. O problema da vaidade não é simplesmente a brevidade das coisas, mas a tentativa de fazer delas aquilo que nunca foram destinadas a ser. O vapor não foi criado para sustentar eternidades.

No fim, Eclesiastes nos chama não à negação da vida, mas à sua correta compreensão. O mundo continua belo, o trabalho continua importante, os afetos continuam valiosos. Mas nada disso pode ocupar o lugar do absoluto. Quando Deus é removido do centro, tudo perde estabilidade. Quando ele permanece no centro, até aquilo que passa encontra significado. E talvez seja exatamente essa lucidez que mais precisamos recuperar em um tempo que transformou o efêmero em fundamento de identidade.

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