Wendell Lessawendell_lessa@yahoo.com.br

O deus necessário

26/05/2022 às 00:24.
Atualizado em 26/05/2022 às 10:25

Engana-se quem pensa que o ser humano vive sem acreditar em um deus. Toda pessoa acredita em um deus. Qualquer um que seja, mas é necessário se crer em alguma coisa. Ainda que esse deus seja ela própria – e quase sempre o é. Ou a ciência ou certa ideologia política. Até mesmo o ateísmo mais militante é devoto de certa divindade. Aliás, a ideologia política mais ateísta é a que se mostrou mais anticristã ao longo da história. 

A intenção ateísta pode parecer razoavelmente coerente, em um primeiro momento; mas, ao se aprofundar, percebe-se a resistência específica ao Deus do cristianismo. Como declarou Nietzsche, nestes termos: “Faço guerra a esse instinto teológico; achei traços deles em todos os lugares. Qualquer pessoa que tenha sangue teológico em suas veias abordará as coisas com uma atitude distorcida e enganosa. Isso faz surgir um sentimento de compaixão que se chama fé: volver um olho cego para você mesmo, de uma vez por todas, para que não tenha de suportar a visão de falsidade incurável”.

Mais à frente, contudo, a objeção se esclarece completamente: “A ideia cristã de Deus – Deus como um deus do enfermo, Deus como um apoio e Deus como espírito – é um dos conceitos mais pervertidos a respeito de Deus que o mundo já viu”. E ele finaliza assim: “E todo esse tempo, esse Deus patético do monoteísmo cristão, como se tivesse o direito de existir, age como um ultimato e uma máxima do criador da energia e do espírito humano. Essa criatura híbrida de ruína, feita de nulidade, conceito e contradição, que sanciona todos os instintos de decadência, todas as covardias e exaustões da alma”. 

É bastante óbvio que a acidez e o ódio do filósofo são direcionados para o Deus cristão e não para qualquer deus, assim como o ódio das militâncias antiteístas não se direciona a qualquer religião, mas ao cristianismo. É bastante incomum vermos reações antiteístas contra religiões panteístas ou esotéricas ou universalistas. O problema é a restritividade do cristianismo e sua exigência de se seguir apenas um Deus, Jesus Cristo, que impõe limites e exige negação de si mesmo e irrestrita lealdade. A ideia de generalizar dos antiteístas é apenas uma tática covarde de pulverizar o ataque quando se pretende, na verdade, bombardear apenas um edifício, o cristianismo. 

Essa tendência, porém, não é recente. Ela sempre existiu. E, de acordo com as Escrituras, ela começou no Éden, com a antiga serpente, chamada também de satanás, ao desconstruir diante de Eva as palavras ordenadas pelo Senhor Deus. A desconstrução da verdade sempre foi a tática mais eficaz de satanás para tentar minar a verdade da revelação divina. Ao distorcer a linguagem e sugerir pluralidade de sentidos, quando há apenas um, satanás pretende confundir e enganar as pessoas, tornando-as escravas de seus próprios juízos. E sempre que isso acontece, as pessoas fabricam para si seus próprios deuses e pensam de si mesmos como deuses.

O apóstolo Paulo falou sobre isso, escrevendo aos Romanos: “Inculcando-se por sábios, tornaram-se loucos” (Romanos 1.22). E nessa tentativa de se tornar deuses de si mesmos ou inventar para si deuses, “mudaram a verdade de Deus em mentira, adorando e servindo a criatura em lugar do Criador” (Romanos 2.25). Por isso, recebem a punição de seu erro: “E, por haverem desprezado o conhecimento de Deus, o próprio Deus os entregou a uma disposição mental reprovável, para praticarem coisas inconvenientes” (Romanos 1.28).

Quando as ideias mais tolas, inconsistentes ou perversas entram na sociedade, quase sempre travestidas de lutas por justiça, por melhores condições sociais, justificadas pela mudança evolutiva de consciência das pessoas ou pela adesão a certo progressismo, é possível atestar que a superficialidade humana conduz o ser humano para o mais profundo abismo, o estabelecimento de si mesmo como deus e sua consequente dissolução moral e religiosa. É sempre a tentativa desonesta e ineficaz de se criar um deus necessário, quando, na verdade, o deus necessário é outro, aquele de quem ninguém conseguirá se esconder.

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