Wendell Lessawendell_lessa@yahoo.com.br

Entre o sopro e o eterno

Publicado em 29/04/2026 às 19:00.

Há algo profundamente inquietante na repetição dos dias. Acordamos, seguimos a rotina, cumprimos tarefas, resolvemos problemas — e, ao final, muitas vezes temos a sensação de que tudo passou como um sopro. A vida contemporânea, com sua velocidade e intensidade, amplifica essa percepção. Estamos sempre ocupados, mas nem sempre convencidos de que o que fazemos permanece. Trabalhamos como se tudo dependesse de nós, mas, silenciosamente, sabemos que nada aqui se sustenta por si mesmo. Há uma fragilidade que atravessa tudo: relações, projetos, conquistas. E essa consciência, quando não é enfrentada, se transforma em inquietação constante.

A cultura atual tenta responder a esse incômodo com soluções imediatas. Intensificar experiências, acumular realizações, preencher o tempo com estímulos. A lógica é simples: se tudo passa, então precisamos viver mais, sentir mais, conquistar mais. No entanto, essa resposta, longe de resolver o problema, muitas vezes o aprofunda. Quanto mais nos entregamos ao que é passageiro, mais evidente se torna sua limitação. O coração percebe que há algo que não se encaixa. Que a repetição não é apenas rotina, mas também um sinal de que estamos presos a um ciclo que não se resolve por si mesmo.

A tradição bíblica, especialmente na leitura reformada, não ignora essa realidade. Ao contrário, ela a reconhece com sobriedade. A vida “debaixo do sol”, como descreve Eclesiastes, é marcada por ciclos, limitações e transitoriedade. Nada aqui é definitivo. Mas a resposta bíblica não é o desespero nem o escapismo. É a reorientação. Não se trata de negar o presente, mas de iluminá-lo a partir de algo maior. Há, segundo essa visão, uma vida que não se vê, mas que sustenta tudo o que é visível. Uma realidade que não se dissolve com o tempo, mas que dá sentido ao próprio tempo.

Essa ideia confronta diretamente a maneira como fomos ensinados a viver. Fomos treinados a olhar para baixo — para resultados, métricas, conquistas imediatas. Mas a fé cristã nos convida a erguer os olhos. Não como fuga, mas como ajuste de perspectiva. O presente, por si só, não é suficiente para explicar a vida. Ele precisa ser interpretado à luz do eterno. Isso não diminui a importância do agora; ao contrário, o fortalece. Porque quando o presente é visto como parte de algo maior, ele deixa de ser apenas repetição e se torna direção.

Há, nesse ponto, uma mudança sutil, mas decisiva. A rotina, que antes parecia vazia, passa a ser compreendida como espaço de formação. O cotidiano deixa de ser apenas sequência de tarefas e se torna cenário de fidelidade. Viver bem não é escapar da repetição, mas aprender a habitá-la com propósito. A diferença não está nas atividades em si, mas na orientação do coração. Quando tudo se limita ao que é visível, a vida se esvazia. Mas quando reconhecemos que há uma realidade maior sustentando tudo, o ordinário ganha profundidade.

Essa visão também altera nossa relação com o tempo. Em vez de sermos consumidos pela urgência, aprendemos a viver com permanência. Não no sentido de controlar o futuro, mas de ancorar o presente em algo que não muda. A fé cristã afirma que a verdadeira vida está “escondida” — não no sentido de inacessível, mas de segura. Isso significa que aquilo que realmente define quem somos não está sujeito às oscilações externas. Não depende de circunstâncias, nem de reconhecimento, nem de estabilidade. Está guardado em Deus.

Para quem observa de fora, essa perspectiva pode parecer abstrata. Mas, na prática, ela produz efeitos concretos. Pessoas que vivem orientadas pelo eterno não se perdem facilmente no imediato. Não porque ignoram a realidade, mas porque a interpretam de forma diferente. Elas trabalham, enfrentam desafios, lidam com frustrações — como qualquer outra pessoa. A diferença está na forma como essas experiências são processadas. Há uma estabilidade que não vem de fora, mas de dentro.

Isso não elimina o cansaço, nem resolve automaticamente as tensões da vida. Mas oferece um tipo de resistência que a cultura atual tem dificuldade de produzir. Em um mundo onde tudo é urgente e nada é permanente, viver com os olhos voltados para o eterno é um ato de lucidez. É reconhecer que a vida não se esgota no que vemos, e que o sentido não precisa ser inventado a cada dia.

No fim, a questão não é se os dias continuarão se repetindo. Eles continuarão. A questão é o que orienta essa repetição. Se tudo se limita ao que passa, então a vida será sempre um ciclo que se esgota. Mas se há algo que permanece, então cada dia — por mais comum que pareça — participa de uma história maior.

Talvez seja isso que nos falta redescobrir: que o presente só encontra seu verdadeiro sentido quando é iluminado pelo eterno. E que viver bem hoje não é viver mais intensamente o que passa, mas viver com profundidade aquilo que permanece.

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