Wendell Lessawendell_lessa@yahoo.com.br

A Reforma do Livro

Publicado em 26/10/2022 às 22:32.

No próximo dia 31 de outubro os evangélicos protestantes comemoram 505 anos desde que o monge agostiniano Martinho Lutero afixou suas 95 teses na porta da igreja em Wittenberg, na Alemanha. Seu objetivo era questionar, sobretudo, dois pressupostos até então defendidos pela Igreja Católica: a infalibilidade papal e a venda das indulgências, especialmente quanto ao mérito para a salvação.

A Reforma Protestante do século XVI tentou resgatar os princípios elementares que a alegorização interpretativa das Escrituras havia deteriorado. Por essa razão, a Reforma Protestante foi, em muitos sentidos, um movimento hermenêutico. Alguns consideram o movimento como “A Reforma do Livro”. O aspecto mais importante foi o papel e a posição que a Escritura Sagrada readquiriu com os reformadores. Os reformadores rejeitaram a tese da Igreja Católica Apostólica Romana de que a Bíblia dependia de autenticação da Igreja para ter sua autoridade.

Predominava na Idade Média uma ignorância geral em relação à Bíblia. Havia pouca erudição na área de interpretação hermenêutica. Até mesmo o clero não conhecia outra coisa além da tradução da Vulgata e os escritos dos Pais da Igreja. O método hermenêutico prevalecente ainda era aquele do sentido quádruplo engendrado por Agostinho (354-430), a saber: histórico, etiológico, analógico e alegórico. Agostinho, embora considerado um dos maiores e mais ilustres pensadores da Idade Média, não foi, primariamente, um exegeta.

Antes da Reforma, o sentido do texto bíblico era de propriedade da Igreja Católica Apostólica Romana, pertencente à tradição desta igreja e à sua doutrina, dependendo exclusivamente de sua autoridade. Esse período é visto por Augustus Lopes como um período de decadência hermenêutica e, conseqüentemente, doutrinária, pois a interpretação alegórica sem controles e a perda doutrinária da igreja caminhavam juntas.

Armesto & Wilson afirmam que era comum aos místicos desprezarem os sacramentos, burlarem a hierarquia e neutralizarem a autoridade da Igreja Católica como mediadora. Havia um misticismo autorizado, uma tolerância da Igreja para com pessoas que demonstravam o desejo de se chegar a Deus por meio de experiências especiais. O misticismo era uma válvula de escape para as energias espirituais que não podiam ser vistas nos rituais formais da Igreja.

A Igreja estava como cacos espalhados. Havia fragmentação não somente na hierarquia, mas também na doutrina. Não sabia em que se cria. A ênfase na tradição por um lado e o crescente misticismo por outro faziam esmaecer as Escrituras no cenário religioso. Foi por isso que os reformadores entenderam que o restabelecimento das Escrituras, ou devolvê-la ao seu lugar próprio, seria a grande tarefa a ser cumprida, a fim de que a Igreja continuasse seu caminho de propagação do evangelho autêntico e genuíno.

A Reforma não intencionou dividir a Igreja – pois ela já estava dividida. Não havia outro cenário senão uma colcha de retalhos teológicos. Longe de ser uma tela monocromática, a Igreja era uma pintura mesclada com várias cores. A intenção da Reforma era, portanto, unificar, trazer a Igreja de volta aos trilhos. E o método pelo qual isso seria possível, segundo os reformadores, era o retorno às Escrituras. É por essa ênfase que a Reforma então é vista como um movimento hermenêutico. A interpretação das Escrituras deveria ir além da tradição da Igreja e, no outro lado, deveria frear o misticismo.

Combatendo os místicos, que desejavam elevar a experiência pessoal acima da Palavra de Deus, as Escrituras, os reformadores entendiam que, a partir do momento em que as Escrituras foram escritas, Deus não mais tem necessidade de se revelar ao homem por qualquer outra via. As Escrituras são suficientes para quaisquer questões de fé. Por isso criam que as revelações extrabíblicas enfatizadas pelas experiências pessoais eram um desvio da verdade bíblica. 

Quanto os protestantes comemoram a Reforma, portanto, dentre outros pressupostos resgatados, o primeiro e mais importante é que tudo o que o homem precisa saber sobre Deus e sobre si mesmo as Escrituras revelam, não tendo, portanto, necessidade de uma experiência mística especial. O que basta é a compreensão das Escrituras por meio do estudo hermenêutico correto. Ainda hoje, a reforma pelo Livro permanece necessária.

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