Wendell Lessawendell_lessa@yahoo.com.br

A geração que desaprendeu a escutar

Publicado em 03/06/2026 às 19:00.

Vivemos cercados por sons, imagens e mensagens. O telefone desperta, as notificações chegam antes do café da manhã, as redes sociais acompanham o trajeto para o trabalho, e o dia termina diante de alguma tela que continua disputando nossa atenção. Nunca tivemos tantas formas de comunicação disponíveis. Nunca recebemos tanta informação em tão pouco tempo. E, paradoxalmente, talvez poucas gerações tenham experimentado um sentimento tão profundo de isolamento interior. Estamos permanentemente conectados e, ao mesmo tempo, frequentemente desconectados de nós mesmos, dos outros e das perguntas mais importantes da existência.

A cultura contemporânea transformou a atenção em uma das mercadorias mais valiosas do mundo. Empresas disputam segundos dos nossos olhos. Plataformas são projetadas para capturar interesse contínuo. Algoritmos aprendem nossos hábitos para manter-nos engajados. Nesse contexto, o silêncio tornou-se quase uma anomalia. Esperar em uma fila sem consultar o celular parece estranho. Caminhar sem ouvir algo nos fones de ouvido parece desperdício de tempo. Permanecer alguns minutos sem estímulos externos tornou-se desconfortável para muitas pessoas. O resultado é que aprendemos a preencher todos os espaços vazios da vida.

Contudo, existe uma diferença importante entre estar informado e estar formado. Podemos consumir milhares de conteúdos e, ainda assim, permanecer superficiais. Podemos ouvir inúmeras vozes sem realmente compreender nenhuma delas. O excesso de informação nem sempre produz sabedoria. Em muitos casos, produz apenas dispersão. O filósofo sul-coreano Byung-Chul Han observa que a sociedade contemporânea sofre de excesso de positividade, excesso de estímulos e excesso de atividade. O problema já não é a falta de dados, mas a incapacidade de processá-los de maneira significativa. O ruído tornou-se permanente.

A sabedoria bíblica oferece uma perspectiva diferente. Em diversas passagens, encontramos homens e mulheres sendo chamados a parar, refletir e examinar o coração. O salmista escreve: “aquietai-vos e sabei que eu sou Deus”. O profeta Elias não encontra a voz divina no vento impetuoso, no terremoto ou no fogo, mas em um suave sussurro. A questão não é que Deus tenha dificuldade de falar. A questão é que o coração humano frequentemente está ocupado demais para ouvir. A tradição reformada sempre enfatizou que Deus se revela por meio de sua Palavra, mas essa revelação exige atenção, escuta e reflexão.

O problema é que nossa época nos educa para o movimento oposto. Somos treinados para reagir rapidamente, opinar imediatamente e consumir continuamente. Há pouco espaço para contemplação. Pouco espaço para ponderação. Pouco espaço para o exame honesto da própria alma. Abraham Kuyper, uma das grandes vozes do neocalvinismo, insistia que toda a vida deve ser vivida diante da face de Deus. Mas isso pressupõe uma consciência que percebe sua presença. Uma vida permanentemente distraída dificilmente desenvolve essa percepção. O barulho externo acaba produzindo silêncio interior, e não o contrário.

Esse fenômeno afeta não apenas a espiritualidade, mas também os relacionamentos humanos. Muitas vezes ouvimos sem escutar. Conversamos sem prestar atenção. Respondemos antes de compreender. Em uma cultura que valoriza a exposição constante, perdemos gradualmente a capacidade de acolher a palavra do outro. Tornamo-nos especialistas em emitir opiniões e aprendizes insuficientes na arte da escuta. Isso produz relacionamentos mais frágeis, debates mais agressivos e comunidades cada vez mais fragmentadas. Onde ninguém escuta, ninguém é verdadeiramente compreendido.

A visão cristã da pessoa humana oferece um caminho diferente. O ser humano não foi criado apenas para produzir, consumir ou reagir. Foi criado para contemplar, adorar, amar e compreender. Isso exige silêncio. Não necessariamente ausência completa de som, mas espaço interior. A tradição reformada sempre valorizou momentos de meditação nas Escrituras, oração e reflexão porque reconhecia algo fundamental: a alma também precisa respirar. Assim como o corpo necessita de descanso para permanecer saudável, a mente e o coração necessitam de quietude para permanecer lúcidos.

Curiosamente, muitos dos problemas que tentamos resolver por meio de mais atividade talvez exijam menos ruído. Ansiedade, exaustão e sensação de vazio frequentemente são agravadas pela incapacidade de parar. Temos medo do silêncio porque ele nos confronta com perguntas que preferimos evitar. Quem sou eu quando as distrações desaparecem? O que realmente governa meus desejos? O que sustenta minha esperança? Essas questões não costumam surgir durante a avalanche de estímulos. Elas aparecem quando a vida desacelera e somos obrigados a ouvir aquilo que carregamos dentro de nós.

Talvez uma das maiores necessidades espirituais, intelectuais e emocionais do nosso tempo seja justamente recuperar a capacidade de escutar. Escutar os outros com atenção genuína. Escutar a própria consciência com honestidade. Escutar a realidade sem os filtros constantes do entretenimento. E, para aqueles que compartilham da fé cristã, escutar a voz de Deus em sua Palavra. Porque muitas vezes o problema não é que Deus tenha deixado de falar. O problema é que nos acostumamos tanto ao barulho que já não reconhecemos a beleza transformadora do silêncio.

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