Wendell Lessawendell_lessa@yahoo.com.br

A alteridade como marca distintiva do cristão

Publicado em 11/02/2026 às 19:00.

A cultura do desempenho, da autopreservação e da autorrealização molda não apenas os desejos, mas também os vínculos. Relações tornam-se frágeis, comunidades se fragmentam, e a empatia, muitas vezes, é seletiva. Em meio a esse cenário, torna-se urgente recuperar uma virtude silenciosa, mas profundamente revolucionária: a alteridade.

Alteridade é a consciência do outro. É o reconhecimento de que o mundo não gira ao redor do indivíduo. É a disposição de acolher quem pensa diferente, sofre de outra forma, ou vive realidades para as quais não temos respostas fáceis. Alteridade é o contrário do narcisismo moral e da indiferença prática. É também o solo fértil da compaixão verdadeira — aquela que não se limita a discursos, mas que se move em direção ao outro.

O cristianismo bíblico, especialmente em sua tradição reformada, não apenas valoriza a alteridade — ele a fundamenta. A fé cristã começa com um Deus que não se fechou em si mesmo, mas se revelou, se comunicou e se entregou. Na linguagem da teologia, chamamos isso de graça. No campo da vida, chamamos isso de amor. E a marca do verdadeiro amor não é o sentimentalismo, mas a disposição de se doar ao outro, mesmo — e especialmente — quando o outro é diferente de nós.

Quando o apóstolo Paulo escreve aos cristãos de Filipos, ele os exorta a considerarem os outros superiores a si mesmos (Fp 2.3), tendo como modelo o próprio Cristo, que, sendo Deus, se humilhou e assumiu a forma de servo. Esse padrão de vida não é natural para nós. Ele exige uma transformação que começa no coração e se expressa no cotidiano: na escuta, na hospitalidade, no cuidado, no perdão, no compromisso com a verdade que liberta e não apenas conforta.

A alteridade cristã, no entanto, não é apenas um exercício ético. Ela é, antes, uma resposta teológica. O outro importa porque foi criado à imagem de Deus (Gênesis 1.27). Isso significa que todo ser humano — independentemente de credo, classe, cultura ou convicções — carrega um valor intrínseco que não pode ser ignorado nem negociado. O próximo não é um obstáculo; é um chamado.

Em tempos de polarizações intensas, essa postura se torna ainda mais necessária. A alteridade cristã não dilui convicções em nome da paz aparente, mas também não usa a verdade como arma de ataque. Ela combina firmeza e gentileza. É fiel aos princípios, mas cheia de paciência com as pessoas. Não se deixa levar por slogans fáceis nem por discursos de ódio disfarçados de zelo moral. O verdadeiro cristão, se for fiel ao Cristo a quem segue, deve ser aquele que se aproxima, não aquele que se afasta com superioridade.

Por isso, a alteridade não pode ser confundida com mera tolerância. Tolerar é, muitas vezes, suportar o outro com condescendência. Alteridade é mais profunda: é o reconhecimento da dignidade do outro, mesmo quando há divergências intransponíveis. É o compromisso com a verdade em amor (Efésios 4.15), mesmo quando o amor não é correspondido.

Na tradição reformada, essa postura é fortalecida por uma compreensão profunda da graça comum — a ideia de que Deus, em sua bondade, concede dons, sabedoria e beleza também fora das fronteiras visíveis da fé cristã. Isso não relativiza o evangelho, mas amplia o olhar do cristão para enxergar que o mundo é mais vasto do que a própria experiência eclesiástica. O cristão, então, é chamado a reconhecer o bem onde quer que ele esteja, a aprender com humildade e a servir com generosidade.

Alteridade não é um luxo. É uma necessidade urgente. Em um mundo marcado por desconfianças e ressentimentos, tornar-se alguém que verdadeiramente vê o outro é um ato de resistência espiritual. Significa recusar o cinismo, cultivar a escuta, e escolher o serviço silencioso em vez do julgamento apressado.

O teólogo suíço Emil Brunner afirmou certa vez: “O ser humano só se torna plenamente humano na relação com o outro.” Para o cristão, essa relação está enraizada em um relacionamento primeiro com Deus. E é nesse eixo vertical que a alteridade ganha força horizontal. Quem foi amado apesar de si aprende, aos poucos, a amar também — não apenas os que concordam, mas até mesmo os que divergem.

O mundo não precisa de mais discursos sobre empatia. Precisa de homens e mulheres que vivem a alteridade como fruto de uma fé viva, refletindo a beleza de um Deus que se fez próximo. O amor ao próximo, nesse sentido, não é um slogan religioso — é o distintivo visível de quem entendeu que o evangelho não se isola: ele se aproxima, serve, e transforma.

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