Vanessa AraújoJornalista, especialista em cinema e linguagem audiovisual

Malfeito, feito!

Publicado em 13/03/2025 às 19:00.
 (Google Imagens)
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Nasci em 1993. Assim como muitos millennials fãs de fantasia, sigo esperando minha carta de Hogwarts. Desde os 11 anos, todo dia olhava a caixinha dos correios, na esperança de ver um envelope amarelado com lacre de cera. Nunca chegou. Mas, se me permitem a licença poética, talvez tenha vindo de outra forma.

Meu primeiro contato com o mundo bruxo não foi pelos livros, mas pelo cinema. O ano era 2001, e eu, com oito anos, ainda não era dona do meu próprio gosto literário. Vi "Harry Potter e a Pedra Filosofal" não na tela grande do cinema, mas na fita VHS alugada na locadora do bairro, com aquele chiado característico antes de o filme começar. Foi amor à primeira vista. As vassouras voavam, as velas flutuavam, e um menino de óculos redondos descobria que era muito mais do que apenas um garoto comum. Se ele podia, eu também podia.

Pouco tempo depois, ganhei do meu pai o primeiro livro da saga. A leitura foi uma expansão daquele mundo que eu já amava, preenchendo detalhes que o filme, por melhor que fosse, não conseguia abarcar. Anos depois, ganhei "A Ordem da Fênix" e, meu pai, novamente, com me presenteou com uma edição comprada de segunda mão, em um sebo. Veio até com o preço anotado em lápis e uma caligrafia bem desenhada: R$25. Até hoje, esse é o meu favorito da saga.

Os demais volumes eu li durante umas férias, devorando a coleção completa da minha prima. Sete livros em poucos dias. Quem precisa dormir quando se pode explorar os corredores de Hogwarts, se aventurar em Hogsmeade ou escapar de um duelo contra Aquele-Que-Não-Deve-Ser-Nomeado? Mas a vida adulta chegou. A rotina apertou. E, com o tempo, percebi que algo se perdeu pelo caminho.

Nos últimos anos, como tantos outros da minha geração, notei que atividades antes prazerosas – como ler um livro, começar uma nova série ou encarar um filme desconhecido – passaram a exigir um esforço que antes não existia. A atenção dispersa, a ansiedade pelo novo e a facilidade de acesso a conteúdos rápidos nos fizeram perder um pouco daquela magia que sentíamos ao mergulhar em uma história. Foi então que decidi revisitar a saga do menino que sobreviveu. Peguei meus livros – agora um presente do meu companheiro – e recomecei do primeiro capítulo.

A leitura de best-sellers é subestimada por muitos, mas há um motivo pelo qual essas histórias se tornam tão populares. São escritas para envolver, para conectar, para nos lembrar daquilo que, no fundo, sempre buscamos: pertencimento. "Harry Potter" não é apenas uma narrativa sobre magia. É sobre amizade, coragem, perdas e escolhas. É sobre aquela ideia de que, por mais difícil que as coisas fiquem, sempre haverá um lugar ao qual podemos pertencer – mesmo que esse lugar seja uma página de livro ou um frame de filme.

Cinema e literatura se entrelaçam nesse caminho. Um amplia o outro, transforma a experiência, traz novas nuances e formas de sentir. Nem toda adaptação faz jus à obra original, mas o que importa não é a fidelidade absoluta, e sim a capacidade de emocionar. O prazer de ler um livro ou assistir a um filme não deve ser medido pela complexidade do enredo ou pela erudição do autor, mas pela conexão que cria com quem o consome.

Muitas vezes, best-sellers e obras infanto-juvenis são tratados como literatura menor, como se fossem apenas entretenimento despretensioso. Mas qual é o problema em se divertir com uma leitura? A arte não precisa ser densa para ser relevante. O que importa não é o selo de "alta literatura" ou "cinema cult", mas sim o impacto que a história tem sobre quem a lê ou assiste. E se um livro sobre um menino bruxo nos faz sentir algo verdadeiro, então já cumpriu seu papel. Afinal, no fim das contas, a verdadeira magia está na forma como cada história encontra seu leitor.

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