Nesta semana, conferi o filme Amarrados – péssimo título, aliás – um terror estrelado pela eterna Mulher-Gato, Halle Berry. A trama acompanha Halle e seus dois filhos, que vivem isolados em uma cabana no meio de uma floresta. O cenário sugere um mundo pós-apocalíptico, já que a protagonista conta às crianças que “o mal” tomou conta das pessoas, acabando com suas vidas. Para proteger a família desse destino, o pai dela construiu a casa onde moram, com inscrições entalhadas na madeira que, supostamente, os mantêm seguros. Eles podem sair da cabana, mas apenas se permanecerem amarrados a cordas presas à estrutura.
A direção é de Alexandre Aja, conhecido por Viagem Maldita (The Hills Have Eyes), clássico das locadoras dos anos 2000, e Horns – Amaldiçoado, estrelado por Daniel Radcliffe (marcado para sempre como Harry Potter) e baseado no best-seller O Pacto, de Joe Hill – filho do lendário Stephen King.
O que me fez clicar em Amarrados no catálogo do Prime? Bom, sejamos sinceros: nós, fãs de terror, temos um talento especial para nos deixar seduzir por produções de qualidade duvidosa. A taxa de aprovação do filme, ao buscar no Google, é de 50%. Nada atrativo. No entanto, a atmosfera apresentada na fotografia me prometeu uma boa experiência.
A produção não entrega muito além dos clichês de sempre, mas conta com boas atuações e um desenvolvimento decente. Pelo menos até a terceira e última parte, que me levou à reflexão de hoje. Portanto, se ainda não assistiu ao filme, melhor parar por aqui - spoilers à frente.
Após um roteiro que nos faz duvidar, assim como o filho mais novo, se o mal que espreita nas sombras da floresta é mesmo real, a resposta aparentemente chega: sim, existe algo ali. Uma entidade? Uma maldição? Quem sabe. Mas uma coisa é certa: o mundo não foi destruído.
No clímax, o mal possui o irmão mais velho e o leva a incendiar a cabana, enquanto o caçula, preso entre as chamas, encara o espectro de sua mãe tentando convencê-lo de que não há escapatória. Mas ele resiste. E, ao final, é resgatado - afinal, um incêndio na floresta certamente chamaria atenção.
Sem entrar em muitos detalhes da trama (porque não é esse o ponto), percebemos que o mal persiste, agora no irmão mais velho. Toda a encenação da luta entre bem e mal, vivida pelo mais jovem, não passou de uma faísca de esperança de final feliz. E é aí que mora o problema.
Não consigo pensar em um clichê maior que esse. O filme, embora escape dos tradicionais jumpscares e trilhas estrondosas que induzem ansiedade no público, cai na mesma armadilha de tantos outros: você acha que acabou, mas não.
E aí fica a dúvida: o roteirista ficou sem ideias? Decidiram evitar um final “feliz” a qualquer custo? Ou já estavam planejando uma sequência, na esperança de transformar Amarrados em uma franquia interminável, ao estilo Sexta-Feira 13 ou Jogos Mortais? Parece um Deja-Vu e, eu te garanto, qualquer pessoa que não seja estudiosa ou entusiasta do gênero vai dizer que os filmes de terror sempre acabam assim.
Por outro lado, há uma interpretação mais simbólica: e se, no fundo, o filme for uma metáfora sobre o comportamento extremamente protetor da mãe? Ela conta aos filhos que a avó deles também enxergava o mal - assim como ela. A partir daí, podemos ver a história sob outra perspectiva: talvez tudo não passe de uma alegoria sobre uma relação familiar possessiva, possivelmente narcisista.
Outra leitura possível é a de que a mãe sofre de esquizofrenia. Afinal, se ela e a avó compartilhavam as mesmas visões, não seria absurdo considerar que a condição poderia ser hereditária. E, consequentemente, também se manifestaria no filho mais velho - justamente aquele a quem ela mais amava (ou, pelo menos, era isso que o mais novo acreditava).
Bom, de uma forma ou de outra, lendo como algo sobrenatural ou como uma metáfora, a conclusão é a mesma: o problema ainda existe. Seja um mal invisível que assombra a floresta ou os fantasmas internos de uma mente perturbada, Amarrados termina como tantos outros filmes do gênero - sem resolver nada de fato. O medo persiste, o ciclo continua, e o público fica com aquela incômoda sensação de que lutou para nada (e esperando o anúncio da parte dois, claro).