O assunto altas habilidades/superdotação (AH/SD) vem sendo amplamente discutido na atualidade. E o que são altas habilidades e superdotação, afinal? É uma condição do neurodesenvolvimento em que a pessoa possui inteligência acima da média, destacando-se onde estiver.
É importante salientar que até meados do século XX, a superdotação considerava apenas o quociente intelectual (QI), avaliando a inteligência lógico-matemática, classificação esta que tem caído por terra com a adesão das múltiplas inteligências nas últimas décadas, que são elas, além da inteligência lógico-matemática, a linguística, artística, espacial, musical, corporal-cinestésica, naturalista, interpessoal, intrapessoal. Para diagnosticar uma pessoa com altas habilidades/superdotação, é preciso considerar os fatores emocionais, psicológicos, sociais e, uma das características mais relevantes, é a criatividade elevada. Renzulli propõe a teoria dos Três Anéis da superdotação a partir das múltiplas inteligências, sendo a intersecção entre capacidade acima da média, criatividade e comprometimento da tarefa. Tratando-se da capacidade intelectual, a pessoa não precisa se destacar em todos os tipos de inteligências, basta sobressair em pelo menos uma, mas há pessoas que possuem múltiplas inteligências acima da média. Quanto ao comprometimento da tarefa, diz respeito à persistência e motivação na execução dos seus afazeres.
As características principais da superdotação são a inteligência acima da média, pensamentos rápidos e complexos, criatividade elevada, facilidade na aprendizagem, intensidade emocional, sensação de não pertencimento, perfeccionismo, alto senso crítico (consigo e com o outro), forte senso de justiça, pensamento divergente, hiperfoco, curiosidade insaciável, dificuldades sociais, preferência em trabalhar sozinho, alta empatia, liderança, sentimento de solidão, entre outras.
Quando se trata da superdotação na vida adulta, obviamente que há muitos benefícios e destaque principalmente no aspecto profissional. Mas há também as dificuldades provenientes dessa condição, como a dificuldade em lidar com hierarquias, limitação, impaciência nas relações com pessoas que não conseguem acompanhar seu ritmo de rapidez e profundidade dos pensamentos e inteligência, a frustração com a superficialidade e ambientes pouco estimulantes, sentimento de ser incompreendidos e de não pertencimento.
Com toda essa intensidade de potencialidades e emoções, é muito comum que pessoas superdotadas sejam questionadoras com tudo, tenham a necessidade de que haja propósito em tudo que façam, causando inclusive crises existenciais quando as coisas não acontecem como desejam, quando estão em momento de autorreflexão profunda. Acontece também de haver pessoas que não conseguem lidar com tudo isso e sentem-se paralisadas, acomodam-se com medo da intensidade, dos julgamentos alheios, pois nem sempre são compreendidas.
A AH/SD não é considerada doença ou transtorno, mas é uma condição do neurodesenvolvimento que pode ser diagnosticada por profissionais qualificados, numa avaliação multidisciplinar com psicólogo, preferencialmente neuropsicólogo, psiquiatra e até mesmo psicopedagogo, principalmente quando se trata de crianças ou adolescentes em fase escolar.
Muitas vezes, a AH/SD é confundida com o transtorno de déficit de atenção e hiperatividade (TDAH), com o transtorno do espectro autista (TEA), transtorno bipolar e depressão. Esses equívocos acontecem pela semelhança das características entre os transtornos, principalmente pela intensidade das emoções. Por isso se torna tão importante um diagnóstico profissional de qualidade que demanda tempo para conhecer cada pessoa em sua singularidade.
O diagnóstico é importante para as pessoas aprenderem a lidar melhor consigo mesmas e entenderem como funcionam. A psicoterapia é de extrema importância em muitos momentos da vida, sobretudo por causa da sensibilidade emocional, dos sofrimentos psíquicos consequentes. Principalmente quando não são diagnosticadas e se sentem fora da caixa a vida toda, muitas das vezes tentam se diminuir para se sentirem pertencentes a algo ou alguém.
Mas será mesmo que precisam se diminuir para se sentirem pertencentes? É libertador quando aceitam a sua intensidade e potencialidade de não caberem numa caixinha e ser diferente, mesmo que a sociedade diga o contrário.
