Na Psicologia, é importante distinguir aquilo que pode ser terapêutico de psicoterapia. Muitas experiências, atividades e relações podem produzir efeitos positivos sobre o bem-estar psicológico, mas isso não significa que sejam terapia.
No sentido mais amplo, terapêutico é aquilo que pode favorecer a saúde física e emocional, o bem-estar, a adaptação ou a redução de sofrimento. Uma conversa acolhedora, praticar exercícios físicos, escrever sobre os próprios sentimentos, ouvir música, estar em contato com a natureza, fazer artesanatos ou passar tempo com pessoas importantes podem ter efeitos terapêuticos.
Por exemplo, uma pessoa que está passando por um momento difícil pode sentir grande alívio após conversar com um amigo. Essa conversa pode ser terapêutica, porque houve acolhimento, escuta e sensação de pertencimento. Entretanto, ela não se torna uma sessão de psicoterapia simplesmente por fazer a pessoa se sentir melhor.
A diferença fundamental está no contexto, objetivo, formação profissional, método e responsabilidade envolvidos. A psicoterapia é uma modalidade de cuidado psicológico realizada dentro de uma relação profissional, conduzida por profissional habilitado, com objetivos definidos e fundamentada em conhecimentos e métodos psicológicos. Ela não consiste simplesmente em “conversar sobre os problemas”.
Na psicoterapia, o profissional utiliza conhecimentos teóricos e técnicos para compreender, junto ao paciente/cliente, aspectos como: pensamentos, emoções, comportamentos, relações interpessoais, padrões de funcionamento, conflitos, formas de enfrentamento, história de vida, contexto social e familiar. Dependendo da abordagem, podem ser utilizados diferentes recursos e estratégias.
Por que uma conversa com um amigo não é terapia? Uma conversa com um amigo pode proporcionar algo extremamente importante: apoio social. O amigo pode escutar, acolher, aconselhar, oferecer companhia e auxiliar a pessoa a enxergar uma situação de outra maneira. Tudo isso pode contribuir para seu bem-estar psicológico.
Entretanto, existe uma diferença estrutural. O amigo participa da relação a partir de uma posição pessoal e afetiva. O psicólogo, por sua vez, estabelece uma relação profissional, delimitada por princípios éticos, técnicos e científicos.
Além disso, o psicólogo não está ali simplesmente para dizer o que faria no lugar do paciente/cliente. Seu trabalho envolve favorecer a compreensão, autoconhecimento e a autonomia da pessoa, considerando sua singularidade.
Por isso, dizer “conversar com meu amigo foi terapêutico” é perfeitamente possível. Já dizer “meu amigo fez terapia comigo” é outra coisa e não corresponde ao conceito de psicoterapia.
Atividades como exercícios físicos, expressão artística, contato com a natureza, sono adequado e convívio social podem ser terapêuticas, pois o funcionamento psicológico não acontece isoladamente do corpo e do ambiente. Eles podem contribuir para regulação emocional, redução de estresse, sensação de prazer, aumento da autoestima, sentimento de pertença e, consequentemente, melhorar a qualidade de vida. Entretanto, isso não significa que essas atividades substituam a psicoterapia; elas podem somar ao processo psicoterapêutico.
No dia a dia, utilizamos a palavra terapia de maneira muito ampla, como: “fazer compras é minha terapia”, “viajar é minha terapia”, “conversar com minha mãe é minha terapia”, “cozinhar é terapia para mim”. Essas frases normalmente significam “isso me faz bem”, “isso me ajuda a aliviar o estresse” ou “isso me proporciona prazer e bem-estar”. Não necessariamente significam que a pessoa está realizando psicoterapia. Essa diferença é importante porque, no uso cotidiano, terapia virou uma metáfora para qualquer atividade que proporcione alívio emocional.
Na Psicologia, entretanto, precisamos ser mais precisos. O ponto central é que benefício psicológico difere de intervenção psicológica. Essa talvez seja a distinção mais importante. Algo pode trazer benefício psicológico sem ser uma intervenção psicológica profissional e muito menos ser necessariamente psicoterapia.
Assim, toda psicoterapia tem uma finalidade terapêutica, mas nem tudo que é terapêutico é psicoterapia. Essa diferenciação é de suma importância, ao reconhecer o valor das experiências cotidianas que nos fazem bem, sem transformar nenhum experiência agradável ou acolhedora em tratamento psicológico.
