Bruna Louise FonsecaPsicóloga e egressa da Faculdade de Saúde e Humanidades Ibituruna (Fasi-Funorte)

Amores mal resolvidos

Publicado em 07/05/2026 às 19:00.

Amores mal resolvidos são histórias inacabadas. Ou seja, são amores que quase se tornaram um relacionamento; fica a expectativa e idealização do que poderia ter sido, ou quando uma das pessoas some sem uma conversa final e, até mesmo, aquelas relações que terminam por motivos de força maior, como a distância, imaturidade, tempo, família, diferença social e econômica. Percebe-se que essas relações são vividas com muita intensidade e, também, muitas das vezes faltam uma comunicação clara, expondo o que cada um sente e deseja para seu futuro.

Costumamos romantizar esses amores, principalmente quando há reencontros após anos, ou até mesmo décadas. Um dos grandes fatores para essa romantização são os filmes, como os grandes clássicos de romance do cinema mostrados em “Um Dia” e “Diário de Uma Paixão”.

No filme “Um Dia”, temos Dexter e Emma, que mantêm uma relação de amizade na tentativa de suprimir a paixão entre eles, marcada por encontros e desencontros. Mas o que percebo mesmo é a imaturidade e falta de compromisso e responsabilidade de Dexter e o medo de se machucar de Emma, mas que talvez seja até pior manter uma amizade assim. São muitos anos de espera e expectativa até que eles finalmente fiquem juntos, mesmo que mantenham relacionamentos com outras pessoas nesse meio tempo, mas o final feliz dura pouco, ao ser impedido por uma fatalidade.

Já no filme “Diário de Uma Paixão”, temos Noah e Allie, um amor dificultado pela família e diferenças sociais. Nele, o Noah tem sua vida construída numa expectativa de retorno; até reforma a casa que sempre sonharam juntos. Allie segue sua vida, mas nunca esqueceu Noah. Eles se reencontram anos depois e finalmente ficam juntos.

Parando para analisar essas histórias marcadas por angústias e expectativas de uma relação que não aconteceu como gostariam, deixando a romantização de lado, será que é realmente saudável esses tipos de amores?

Na psicologia, esses amores são entendidos como relações que não foram elaboradas no luto do término, que também precisam ser vivenciadas e não são menos importantes que o luto pela morte de alguém. Se você quiser saber mais sobre luto, tem um artigo anterior falando a respeito. A elaboração do luto acontece da mesma forma.

A psicóloga russa Bluma Zeigarnik criou o conceito de Efeito Zeigarnik, que descreve como o cérebro mantém as relações inacabadas mais vivas do que as relações que tiveram um fim; um encerramento saudável, criando fantasias de um possível retorno, de como o outro está atualmente e até mesmo numa espera de uma última conversa para que se encerre a história definitivamente.

O amor mal resolvido é um amor que vai, mas fica. Que não se despede. E, por falar em despedida, elas são importantes justamente por serem um ritual que faz parte da elaboração do luto. Elaborar o fim de uma relação não significa que irá esquecer a pessoa, e sim ressignificar o que o outro foi, as vivências. O amor toma forma diferente, abranda e dá lugar ao carinho em nome das boas lembranças do que viveram juntos e abre espaço para um novo amor.

Quando não é elaborado o fim dessas relações, há uma tendência de repetição de padrões, estar com pessoas diferentes e manter a mesma dinâmica de relações ou estar sempre comparando outros com a pessoa do passado, mas continuar esses padrões não é saudável e nem traz felicidade genuína. Nestes casos, faz-se necessária a quebra dos padrões, e isso é possível com ajuda profissional de um psicólogo.

Como cita Gregório Duvivier em sua peça “O Céu da Língua” sobre despedida, segue um trecho: “A despedida não é dizer adeus, mas é a cerimônia do adeus. Só uma língua que inventou a saudade poderia ter inventado a despedida. Se a saudade é a presença de uma ausência, a despedida é o prenúncio dessa ausência. Nos despedimos porque sabemos que vamos sentir saudades, e a despedida vai ajudar na saudade futura. Se despedir é tornar presente aquilo que não estará. Por isso a gente gosta de se despedir. A gente passa uma vida se despedindo porque a gente sabe que é no final que as pessoas prestam atenção na gente. Dito isso. Tô indo embora.”

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